sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


NOITE FELIZ

 

Uma paisagem que não existe.

Um cheiro de merendeira de couro e a cor do guardanapo de algodão que embrulhou os biscoitos (só pra trazer a infância de algum lugar que é longe).

A árvore de Natal piscando na sala vazia, até bem tarde.

Férias com previsão de fim, tarefas e impedimentos demais pra atrapalhar o gozo.

A rabanada que minha avó fazia.

A torta de nozes controlada pra que a silhueta seja preservada, pelo menos um pouco.

Família aos pedaços, amor em pedaços, pedaços de papéis de presentes pelo chão.

Os brinquedos que não combinam com as crianças. 

Os adultos que não se combinam.

A roupa escolhida, os cartões que vão pro lixo, a comida que vai sobrar, uma implicância ou outra com pequenas coisas, alguém que vai chorar.

Um lugar pra onde ir, reservado, onde é possível viver um dia feliz. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2008


ESPERA

 

A menina cavou com suas próprias unhas um buraco. Lá dentro depositou um desejo que já começava cheirar a mofo. Fez que esqueceu.

O menino tirou um brinquedo velho muito novo do armário e fez sua tarde outra.

A chuva continuou a molhar algumas claridades.

O vento disse: espera, agora ainda não.

No vaso uma flor ameaça abrir a qualquer hora.

Na certa, uma outra coisa virá nesse espaço que parece que não há.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

sábado, 15 de novembro de 2008


BOA NOITE

 

Eu te amo mais que...

 

Mais que o quê, filhinho?

 

Deixa eu pensar em alguma coisa bem boa...huumm...

 

Uma coisa bem boa?

 

É...já sei! Eu te amo mais que saber falar! Bom, se eu não soubesse falar eu não ia poder dizer que eu te amo, mas eu ia amar assim mesmo.

 

Saber falar é muito, meu anjo. Que você saiba sempre falar o que quiser e que for importante pra você. E que tenha sempre alguém pra te escutar.

 

(meus olhos ficaram molhados e de uma gota pequena dessa lágrima se fez uma fada que derramou uma chuva de minúsculas estrelas por todo o quarto naquela noite linda) 

domingo, 2 de novembro de 2008



GUARDADOS

 

Na caixinha de esquecimentos botões já tiveram roupa.

A renda teve um certo vestido.

Cada pequeno objeto em sua estampa de inércia se finge interrompido.

A flor seca ainda é habitada da lembrança de umidade.

De cheiro de terra, saudade.

O bilhete amassado, de uma que fui de mim,

é ainda impregnado.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

“Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos.” (José Saramago)

 

INDIFERENÇAS IMPOSSÍVEIS

 

Porque andar sobre as montanhas e olhar pra todos os lados me dignifica mais que grande parte das funções que tenho que cumprir.

Tudo parece menor e menos útil que a vida que brota sem esforços nas infinitas cores que a natureza pinta, indiferente à presença de olhares. Não há silêncio e sim um universo preenchido de delicadezas e exageros que dispensam argumentos e justificativas.

São coisas assim que geram sentido, também algum poema do Neruda, o canto apaixonado do Diego Cigala, muitas outras que cada um é que sabe e também os preciosos dias que podem (e deveriam todos) servir ao exercício do amor.  

Se não é o amor o próprio sentido que alimenta essas percepções e que se conquista com o tempo e com a sabedoria que nos fazem distintos.

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2008


PRIMAVERA

 

Tomada a vida com mais apreço e doçura, dá-lhe exuberância, pois que assim é que é pra ser a primavera - na fartura, na sobra e não na falta.

Em tempos de surpreendências atmosféricas e rebeliões da Dona Natureza, ainda mais nesses hemisférios de cá, estação é luxo de quem sabe delas. No mais é chuva, frio ou calor.

De chuva, tem tempestade de todo tipo, ainda há pouco me pegou umazinha brava, mas de fácil solução. As das águas, não fossem as destruições e as precariedades dos abrigos, seriam puro espetáculo de beleza pra se admirar.

De frio, aprumo o esqueleto, providencio mais agasalho e faço bom uso da indiferença se o frio for metáfora. Se for de fato, aproveito pra aninhar mais gostoso.

De calor a gente se ajeita, ventila, refresca e aproveita, que é mais dele mesmo que o amor se alimenta.

O que aborrece é besteira, desperdício, ignorância, omissão e secura.

Que pra vida ficar ruim basta deixar que seja.

terça-feira, 16 de setembro de 2008


DELEITE

 

Na correria do vai e vem dos compromissos sem fim, melhor é desfrutar nos percursos, e sem economia, da exuberância e fartura dos ipês cor-de-rosa (cor que da rosa ainda rouba o nome nessa vez de ipês).

A cidade de escassa beleza surpreende enfeitada, encantada, premiada. De brinde, umas outras árvores de nome que não sei, em menor volume, exibem flores miúdas de um roxo azulado, em que tudo parece composto num arranjo premeditado.

Pra não bastar, a noite traz uma bruma que cobre de transparências a lua muito cheia, fazendo parecer que alguém pintou o céu e deixou borrar um pouco, por puro deleite.

Sorte a minha que tenho andado com os olhos abertos.

E o coração.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008


CONVERSA DE AMIGA
                                                                 pra Pricila
A princípio, tudo bem.
Assim sem muito conflito e nem muito entusiasmo em algumas funções a cumprir.
E aí a amiga me disse estar cansada de ser corajosa. Concordei com ênfase – pro diabo com isso! A gente passa a cumprir esse papel e tem que bancar o tipo.
Ela percebeu que eu ando desesperada praticamente bem menos. Um pouco vai que é da natureza da pessoa, mas bem melhor agora, acho que por circunstância e análise – exercício de vigília pra não cair em buraco muito fundo.
Tem também remédio que dá pra usar sem maiores problemas.
As flores dos ipês amarelos caem mesmo e depois vêm as outras de outras cores, de outros ipês e os amarelos voltam mais na frente. O verde seca e depois fica verde outra vez e a gente, mais ou menos igual.
Tem hora, que quando assim desencontrada, vai procurar alguma coisa que nem sempre é pessoa.
Prudente e adequado é medir as importâncias. Eu, no caso, arredei umas coisas pro amor caber grande e generoso. Da minha parte, no agora, tá feito.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008


FESTA

Do vôo da borboleta capturei, a derramar do limite das asas, uma chuva de cores.
Pintei meu dia e minha alegria com pincéis dançarinos.
Da confiança ensaiei os rabiscos de uma dança.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto
os últimos dias de agosto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


COMPENSAÇÕES

Desespero é coisa que atropela o tempo e as ações com sua fúria inútil. Mas nem todos são dados a ele.
Por isso ela invejou o personagem de um livro, desespero não o visitava e assim ele cumpria os dias com relativo controle.
Confortou-lhe, entretanto, o pensamento de que o tempo e certa dedicação eram ingredientes fundamentais que a fariam envelhecer pra melhor. E assim o fazia. Da aparência cuidava com minúcias e sem exageros. Mas nas profundidades a idade na certa vinha como um prêmio de muito já ter vivido. O coração lhe saía pela boca com menor freqüência e algumas conversas e situações podiam se dar sem grandes esforços de convencimentos. Dessa maneira procurava acreditar que afastava de si a possibilidade do maldito desespero.
Mesmo assim sabia, por experiência e estrada, que algumas sensações e percepções aparentadas por semelhante intensidade tornavam a vida indiscutivelmente mais interessante. É como um preço que se paga. Não fosse ela acometida eventualmente pelo inútil desespero, na certa também não experimentaria outras intensidades de melhor procedência.
E o amor.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008


PEQUENAS OBSERVAÇÕES

- Foi o meu filho que me mostrou o primeiro ipê amarelo florido desta temporada. Muito bom observar e compartilhar essas importâncias.
- Com o analista compartilhei alguns espantos e novamente a constatação de que afinal somos todos um tanto perturbados. Melhor quando a gente cuida das perturbações da gente porque assim vivemos menos apertados e perturbamos menos os outros.
- Meu outro filho menorzinho disse: “ainda bem que a professora tem bom senso e deixa a gente pedir pra mudar a musiquinha que ela canta na hora do lanche”. Feliz fico eu por ele já se interessar pelo bom senso e saber empregá-lo tão bem.
- O meu jardim está florido, melhor esquecer os enganos. Quero melhorar meus próximos (muitos) anos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008



PRA LONGE AGORA

Numa escrita de relíquias, constrói-se um diário de poucos e preciosos dias. O vento lá fora sopra um desacreditamento pra longe agora.
Os anjos comparecem com asas de festa, cintilantes, de cores desaguadas.
Vejo como dançam alegres e loucos, enquanto os segredos dos percursos são guardados.
Vive-se muito no enquanto destes dias anunciadores de muitas primaveras
(e ainda faz inverno por aqui!).

quinta-feira, 31 de julho de 2008


TARDE DE INVERNO

pra Beth

Algumas mulheres preocupam-se com os casaquinhos dos filhos, se estão suficientes, e comentam como que as bochechas dos pequenos ficam rosadas com esse tempo.
Pensam também na noite que está por vir, que é preciso distraírem-se porque o companheiro não se sabe e tal.
Olham a paisagem bonita enquanto desejam que fossem menos intensas e complicadas.
Depois se confortam pensando que no fundo o que querem é até simplesinho se for pensar bem mesmo.
Vão então caminhar pela tarde de inverno a passos rápidos pra exercitarem as pernas que já não são as mesmas de uns anos atrás e no percurso lembram-se que na última noite não passaram o creme anti-idade e que o vento nessa época.
Enquanto isso alguns homens correm, não pelas pernas propriamente, mais pelo colesterol.
E preocupam-se menos e com outras coisas.

sábado, 26 de julho de 2008


PRESSENTIMENTO

Na claridade por detrás do morro, um pressentimento de lua.
Ela surgiu minguante, mas luminosa, a ofuscar as mais belas estrelas.
Vai que nem faço uma comparação, vai que nem percebo, enquanto tomo meu vinho e distraio uma saudade.

terça-feira, 15 de julho de 2008


CHUVA MAIS COMPRIDA

Depois de eu ter chovido a chuva mais comprida me enfeitei de me achar bela.
Assim prossegui, meus pés nus brincando na relva molhada da minha chuva.
Até desaforei a dançar, até fiquei bem feliz.
Eu, meus pés e minha belezura.
O sol veio assistir e me ofertar um arco-íris que se formava pra cenário
com os últimos pingos
da minha chuva mais comprida.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


PROCEDIMENTO

Ela vigiava instantes, preocupava-se em reconhecê-los e a eles atribuir cores.
Procedimento de espichar o dia e gerar sentido.
Quando o sentido vinha treinava esquecimentos.
Reservava alguma essência que virava memória que servia pra consultas, servia pra reconhecer outros instantes.
Alguns agarravam-se nela e colavam, instantes insistentes, dor, alegria cega, ilusão ou utopia.
Interrompiam sua vigília, prejudicavam seu talento de atribuir cores.
Às vezes viravam doença e precisava de ajuda - oração, mandinga, vela acesa, incenso, análise, conversa, benzedura, receita, terapia.
E mais conversa à beira do fogão, à beira da estrada, à beira do abismo ou do nada.
Ela então espreitava (já pressentia).
Vigiava
e outro instante surgia.

quinta-feira, 3 de julho de 2008


UM SONHO

Me vesti de árvore, desenhei um nome no chão com as folhas secas e deixei que o vento soprasse.
Como segunda providência convidei uma mulher e um homem apaixonados pra que se amassem na minha casa e impregnassem todos os cômodos.
Como de árvore eram só as minhas vestes, saí a caminhar desenraizada.
Com o vento algumas folhas do nome que escrevi me alcançaram, agarraram-se em meus cabelos e segui a percorrer o inverno.
Entorpecida,
obnubilada
e livre.

segunda-feira, 30 de junho de 2008


DE PREFERÊNCIA

Por vias diversas desfilam histórias e sentidos intercalados, sobrepostos, desandados.
Sonho que virou pesadelo.
Pesadelo que expurgou uma miséria.
Mergulho no espaço com meu corpo dançante e dolorido.
Um ou outro desgosto agarrado nas articulações vai se diluindo, virando movimento sem interpretações racionais – ainda bem.
Assim também acontece nas linhas dos desenhos, no semi-acaso das cores, nos dedos enlouquecidos sobre teclas das letras ou das notas, nos momentos capturados.
Há que se viver por essas vias e também beber bons vinhos e amar.
De preferência muito.

UM DIA

Não se sabia de outro domingo, de outro presente que não aquele atordoado, insano.
O dia era esse e não outro.
Nenhum café comprido, nada pra jogar fora na conversa, só a própria, inteira, dispensável porque estúpida.
Estúpida me reconheci naquele palavrório sem sentido, desprovido de construção ou de delícias inúteis.
Vai que uma carta seria uma solução poética, carta de símbolos sem palavras, carta de imagens desconectadas, sugestões abstratas, uma possível despedida sem adeus.
Fazia frio e sono e cansaço e medo. Fazia abandono e inverno.
Tomei o presente nas minhas mãos, não o subjetivo, o da caixa. Olhei sua beleza e suas
possibilidades repletas de sentido.
Mas o que se passava era débil e estéril, uma manifestação de passado e estagnação.
Emprestei ao dia algumas cores, as de outra caixa, de outro passado. Cores que se refaziam presentes.
Algo então foi escrito, que nem eu mesma conseguia decifrar. Colocado no papel pra que virasse outra coisa. E virou mesmo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008


PARA UM LUGAR

Há um lugar onde as noites são calmas e as manhãs possíveis.
Tudo pode ser dito sem maiores cálculos, problemas menos ainda.
Precauções são pouquíssimas e quase desnecessárias.
Domingos são bem vindos e segundas igualmente.
Para lá, os que caminham com muita bagagem têm que se desfazer de alguma parte dela.
Alguns, vão indo com tão pouca que no caminho precisam adquirir algumas coisas, umas básicas, outras, desnecessidades adoráveis.
Alguns vão com passos tristes, talvez porque queriam levar alguém que não quis ir.
Outros, com passos determinados e animados.
Uns sós, outros com companhia.
Pra ir é preciso querer.
Não importa a bagagem, nem o motivo, nem o modo com que se caminha.
É comum partir pra lá e voltar ou perder-se no caminho.
Pior é quem esquece pra onde estava indo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008


A MULHER LOUCA

A mulher louca pensou que não era mais.
Gastou uma pose nova e um discurso em vão.
Fez convocação de anjos e aguardou.
Ao achar que não era mais, deparou-se consigo e com sua miséria.
Habitava ela, a louca, adormecida no cerne da mulher.
Assustou-se, afastou-se, olhou e se viu da distância.
A distância era boa, lúcida e confortável.
Guardou a louca e aguardou.
Passaram-se os dias
a limpo.
INSENSATEZ (PROJETO BRASIL)


http://br.youtube.com/watch?v=yFp43nLyfJ8

terça-feira, 10 de junho de 2008


CONVOCAÇÃO

Há um lugar onde habitam os anjos, e lá ensaiam tarefas de anjos.
E aguardam.
Aguardam quem os convoque - quem ou o que. Às vezes algo se esboça e isso é suficiente para que eles se manifestem.
Algo se esboça e se arrisca. Pronto, vêm então os anjos que se identificam com a questão em questão. Os anjos são assim, setorizam suas questões conforme os ventos ou a disposição das nuvens. E daí se prestam a essa ou àquela função.
Como preparação, cantam, dançam e enfeitam suas vestes. Isso, os que delas fazem uso, os que não, ajeitam cabelos e asas e esfregam gotas de chuva que fazem a pele de anjo mais tenra e brilhante.
Alguns casos requerem reunião de anjos. Eles então trazem fitas de cetim de todas as cores e trançam uma trama única onde tudo o que diz respeito àquele caso específico é amarrado. Daí, fazem um tecido que quase sempre é muito comprido e complicado. E esse tecido é percorrido por cada anjo que analisa sua composição, as passagens das cores, as mudanças dos pontos. Com isso decidem se o tecido é pra cobrir, pra encobrir, se é pra aquecer, enfeitar, ou se é pra ser levado definitivamente para a exposição celeste de casos insolucionáveis.
Pois então, que venham os anjos.

domingo, 25 de maio de 2008


DIMENSÕES

De que tamanho é o seu braço? Cabe em que abraço?
A lua cheia não cabe no meu desassossego.
A vida mede um percurso e acaba.
A ilusão é maior que a vida.
A barata que atravessa a sala é maior que o home theater instalado por lá.
Esta noite é muito maior que a passada.
A terra é uma poeira ínfima no universo.
A poeira no meu piano é gigantesca.
A do chão da sua casa aumenta muito quando tem testemunha.
O descuido com o outro faz alguém infinitamente menor e maior para aquele outro.
Menor pelo valor, maior pelo mesmo valor.
Um desprezo importante é invasor das dimensões.
Há uma joaninha que ao pousar no meu braço faz qualquer desprezo inexistente (arquivo temporariamente fechado).
As montanhas têm sido do meu tamanho quando deito-me sobre elas com meus olhos cansados, e meu corpo se entrega aos contornos que elas me oferecem e assim fica imenso e esparramado.
O universo cabe na palavra que o denomina e nenhuma nova descoberta sobre ele faz a palavra mudar de tamanho.
Eu achava que dizer “eu te amo” automaticamente causava grandes medidas no tempo. Descobri que pode ser bem pequeno e passageiro, depende do tamanho do momento de quem diz.
Mesmo assim o amor tem poder de dimensões incalculáveis, também o perdão, a compaixão e a vontade.
Tem amor que é maior que tudo que teve tamanho inadequado na sua trajetória, maior que a loucura (sabe-se lá quantos tamanhos tem a loucura?).
Justiça é insistentemente bem pequena.
É frágil, a pobrezinha.
É quase só uma idéia.
Uma idéia é maior
ou menor
que outra.

domingo, 18 de maio de 2008


SOBRE AGRADOS

O homem passou e deu bom dia.
O dia foi o mesmo, mas o homem melhorou mais um pouco porque disse bom dia. Quem ouviu, melhorou também um pouco, pois que ouviu.

Alguém quis agradar alguém por gosto.
O agradado fez projeções, interpretações e premunições equivocadas e piorou um pouco.
Agrados deveriam ser ao menos agradecidos. Desprezados são muitas vezes por ignorância das suas origens.
Gozado, que tem agradados que se sentem ameaçados, mudaram de rumo e não conseguem ver que o agrado foi genuinamente do coração e que o agradante não quer além de notificação de recebimento do agrado, é simples.

Acolher um agrado é ciência do coração que sabe guardar pra sempre um presente e o amor, nem que a circunstância faça com que fique só na memória, mas está lá (pra sempre é lindo).

Relacionar não é simples e faz história.
História tem peso e conseqüência, difícil administrar o que não se apaga.

Não há grande problema em esquecer o dia do aniversário. Problema é esquecer o aniversariante.

Escrevi há tempos que certos gestos de carinho não deveriam precisar de folheto explicativo ou manual de instruções.
A verdade é que parece que precisam e por isso perdem seu frescor, sua espontaneidade.
Sem terem sido feitos pra isso, viram peça de jogo, chatice, é triste de reconhecer.

A vida é muito curta, a terra é bem próxima de nada e as vaidades são infinitamente menos que ínfima poeira.

Sofrimento é grande pra tão pouco.

Pouco é menos pra tanto descuido.

quarta-feira, 14 de maio de 2008


O CAVALO NO BARRANCO

Eu vi um cavalo no barranco.
Eu vi um cavalo no barranco em plena cidade, de um entroncamento com muitos carros passando.
Eu vi um cavalo no barranco e me surpreendi com sua altivez e importância no meio do barranco em plena cidade, com carros passando.
Eu vi o cavalo no barranco quando voltava do supermercado apressada pro trabalho.
Vi o cavalo branco no barranco quando pensava que eu estava menos triste no meu trajeto.
O cavalo branco no barranco estava lá quando minha pressa me incomodava menos, por isso o achei lá e importante.
Vi o cavalo e me surpreendi com ele e comigo, ele importante, e também eu, passando por lá menos indignada, com uma tristeza menorzinha.
Achei tão lindo o cavalo no barranco, ele branco, o barranco verde e os carros passando inclusive o meu.
Eu e o cavalo branco no barranco estávamos muito importantes no momento em que parei no sinal e fiquei olhando pra ele o suficiente pra dele guardar uma imagem.
O trajeto melhorou muito com o cavalo no barranco e eu a passar por ele.
Eu e o cavalo branco melhoramos muito aquele momento.

A MULHER, AS NUVENS E O AMIGO

Havia uma mulher.
Havia nuvens.
A mulher se viu nua, vestida de nuvens.
Quando escuras, a mulher não enxergava e desagradava muito não ver.
Quando claras, pareciam-lhe vestido de noiva ou de santa, ou de fada ou de pura.
Noiva nunca tinha sido, santa ainda menos, fada se achava e pura, com tudo que nela cabia, era, ela pura.
Envolta em nuvens caminhava a mulher, a disfarçar sua nudez e a soprar inutilmente as nuvens que, de resposta, lhe confundiam, armavam tempestades, volumes, texturas.
Ia a mulher com suas nuvens e um amigo perguntou: “E as nuvens?”
Respondeu a mulher: “Olha, consegue vê-las? E a mim? Será que se elas se forem estarei nua? É que quero ser exatamente o que sou e caber onde me couber e dar menos satisfações. Meu amigo, sopremos nossas nuvens e que nossas palavras nos salvem.” E agradeceu ao amigo, a mulher com as nuvens.

quarta-feira, 7 de maio de 2008


O PLANTIO DO AMOR

Nossa, quanta interpretação! Tudo bem, a conversa tem sido de fato um pouco séria, mas nada de extremos.
Vamos combinar que plantaremos o amor, em fartura! Muitas mudas não vão vingar, algumas não irão muito pra frente, mas teremos um campo cultivado e florido de amor!
Tenho mudas de excelente qualidade, conheço quem tem bons adubos, chamaremos também os que dispõem de águas cristalinas, conheço muitas fontes.
Faremos a festa do plantio, ando mesmo querendo festa, perdi umas celebrações por aí por pura circunstância. Vamos dançar e beber bons vinhos, comer boas comidas, saborear as especiarias mais raras e preciosas, que merecemos e temos paladares bem dispostos.
E resguardaremos com doçura nossas dignidades ao exercermos esse amor, ao colhermos suas saborosas frutas.
E as flores, que brotem com outras cores diferentes das que esperávamos pra que nos surpreendam, e que as formas, também sejam inusitadas.
Ofereço um belo buquê pra você, que se dispôs a vir e ler, com certeza você faz parte desta festa!

terça-feira, 6 de maio de 2008


UMA RESPOSTA

Estranho agora esse dizer de flores e fertilidades.
Hoje, como exercício, treino alguns bons motivos – as montanhas, as chuvas, a fartura das cores, dos sons e esquecimentos, que tenho dificuldade demasiada com misérias e um certo exagero insiste em mim a me tirar o ar. Abundante é mesmo a vida na plenitude da planta que não se sabe, até nos terrenos menos férteis algo se presta à primavera.
Nos filhos cabe tudo (me comovem absolutamente), sobretudo o amor do qual não desisto e sabendo das minhas falhas insisto em reafirmar, com todas as suas derivações possíveis – respeito, consideração, alegria, justiça, compaixão entre muitas outras.
De quantas vezes me vi confundida já não me lembro, sigo a limpar os dias dos resquícios das águas que passaram. Decerto deságuam no mar e na abundância se perdem ou deixam de ser, tanto melhor.
Curioso que de lembrança tenho ainda a imagem de um oceano inteiro no molhado dos seus olhos – nem pretendo me esquecer, pois que neles habitavam sim todas as águas que me assustaram acho que pra sempre.
Não há nenhum papel em branco, levianas as esperanças românticas num mundo de pessoas adoecidas e complexas – vaidade, orgulho, crueldade, mesquinharia, indiferença, conformismo. Afinal o que há de novo nas vitrines e nos jornais? Em grande ou em pequena escala, reflexos de um ser talvez mal planejado, talvez mal evoluído, talvez vítima de um acaso não muito justo nem feliz. Ser humano, desumano, que diferença faz? Onde está o mérito?
Há um outro sentimento sim, que ainda não conheço bem, que definitivamente não é rancor. Por isso a náusea, o desconforto e um certo sarcasmo. Por isso não esperar com entusiasmo nem a sorte, nem mais o ano-novo, nem Godot, nem você.
No momento viver é uma tarefa com muitas responsabilidades e a alegria é, quando se faz possível, o exercício de preciosos prazeres (pra mim o amor, a natureza e as artes são fontes reais), conseqüência de quem também se contaminou pela primavera e que, provavelmente também a ela se prestará outras vezes.

domingo, 4 de maio de 2008


EM BOA HORA

Assim que achou suficiente, levantou-se e foi-se embora.
Em boa hora, será? Difícil medida essa – o suficiente.
Ir embora foi muitas vezes – algumas muito depois do suficiente, algumas bem antes.
Suficiente é pura suposição, pois que boa hora pra ir é ciência de minúcias, que em poucos momentos presenteia poucas pessoas.
Glória e alívio quando é da gente o privilégio, que em grande parte, o que se passa é susto e desapontamento.
“Embora” insiste em ser, incontáveis vezes, não em boa hora.
E aí é desencontro, despedida, e mesmo abandono.

sexta-feira, 2 de maio de 2008


MAIS UM TEXTO

Parto pra uma viagem,
miragem de um outro lado,
dado que esgotada uma imensa batalha
falha de enganosos pressentimentos,
fomento de insistência
da demência de um sonho.
Proponho então virar a esquina,
menina extraviada numa mulher
sequer esquecida, que o coração não tem memória
- história repetida,
descabida e inevitável.
Adorável a besta vida
atribuída a ilusão à realidade
em que há de se viver que é preciso e precioso.
Gostoso o vento
e lamento ir sozinha
minha curva é sinuosa
gostosa a chuva, mas não conheço o rumo.
Aprumo um querer que já não me sobra
-obra de desencantamentos e desvios.
Tardio o sonho num corpo que envelhece
pois amanhece só lá onde não se sabe
e não cabe desistir à beira da minha estrada de poeira,
guerreira que sou, que procura
e jura que existe.
Insiste e vai, não se sabe pra onde.
Esconde o cansaço e separa as águas
- mágoas de um lado, de outro, provável loucura,
pura chama que não se esgota,
gota de vinho caída sobre o papel
no céu do meu desenho, provável paisagem
na aragem de tons da minha aquarela. Com lápis de cor
decoro meus sentimentos e no meu estojo, uma lembrança
de esperança nenhuma. Algum sofrimento
é alimento pra mais um texto ilustrado, que é de onde eu parto.

sexta-feira, 25 de abril de 2008


DE UMA CONVERSA

Muito belo o corrimão, e como é funcional, não?

Escolhi com cuidado, mas você ainda não teve o prazer de ver minhas xícaras novas! Os pires vêm com um sistema de encaixe e drenagem dos resíduos dos líquidos que não permite que um pingo sequer estrague o prazer de trazê-las à boca com a máxima segurança, sem roupas manchadas, uma maravilha!

Estou louco para experimentá-las, fiquei curiosíssimo! Mas o corrimão, como é anatômico e a textura permite um contato sem asperezas nem choque de temperaturas. A mão é acolhida e uma sensação de segurança toma conta do corpo todo, além, é claro, da estética perfeita, que dispensa exageros, mas que é longe de ser só funcional.

Sabia que ia reparar tudo isso! Tenho também, que descobri numa loja perfeita que visitei numa de minhas viagens, um saca-rolhas que automaticamente saca as rolhas deles mesmos para que não tenhamos o trabalho de continuar girando qualquer dispositivo pra esse fim. Ele saca as rolhas das garrafas e de si mesmo, imagina que descanso!

Olha, também a mim fascina a funcionalidade associada a um belo design e com certeza vou encomendar um desses, mas mudando um pouco de assunto, ando muito irritado e isso me preocupa, já marquei até um retorno no médico que me acompanha nessas questões vamos dizer assim psíquicas, sabe como é.

Claro, eu mesma continuo firme com meu remédio controlado pra pessoa descontrolada, sem ele, não sei o que seria de mim e da minha coleção de objetos bonitos e funcionais. Mas me diga, amigo, o que anda irritando você afinal?

A cor da fórmica do elevador do meu prédio é absolutamente insuportável.

Te entendo completamente.

quarta-feira, 23 de abril de 2008


DO AMOR

Escorrem águas por entre meus dedos finos, pois que tudo se liquidifica e derrama. Lentos os percursos, também os das águas profundas, tudo se dispôs à lentidão.
Abstratas as impressões, códigos de passagens, sinais para a leitura dos sentidos.
Lento, lento, o movimento que deságua, a revelar todas as invenções, supostos motivos pra seguir.
O que se vê é cenário, ilusão, até as guerras eternas, as injustiças, as vaidades, a dor dilacerante das misérias humanas, um intervalo entre a vida e nada.
Não agir é possível e cabe.
Consigo ouvir uma música tão perfeitamente bela enquanto levanto vôo e atravesso as montanhas pra tentar chegar a lugar nenhum – líquido orgasmo da efêmera beleza quando se revela pura, algo que insiste e sustenta.
(alguém diria ser o amor)

segunda-feira, 21 de abril de 2008


CUMPRIR ANOS


Cumpro anos enquanto crescem meus cabelos, resolvi que os terei novamente suficientes para uma longa trança.
Muitos fios brancos, cuidadosamente pintados, lembro-me quando os tinha curtos e sonhava com a sensação deles longos, roçando as minhas costas.
Cumpro anos, mais um que se encerra em plena indisponibilidade para festejos.
Cumpro anos, que sou cumpridora das minhas tarefas. Cumpri a conclusão desse último muito aborrecida por passar mais um sem os festejos mais que merecidos, fazer o que, indisponibilidade é o que é.
Cumprir anos me parece diferente de fazer aniversário.
Cumpro anos nos meus cabelos a crescerem mais ralos e nos desencantamentos mais fartos, mas agora, passados uns dias, já tenho o prêmio da minha ironia a se restabelecer com tantos ingredientes disponíveis pro seu alimento.
E portanto, resolvi que só hoje cumpro anos e brindo comigo, eu, minha taça de vinho e meus cabelos atrapalhados por um certo bom humor que me guiou pra achar esta, enfim, uma bendita lua cheia.

quarta-feira, 16 de abril de 2008


RESPOSTA A UMA AMIGA

Obrigada, minha flor.

Às vezes fico constrangida com esses tristumes. Tenho problema sério de prolongamento das dores e me sinto estúpida quando penso no mundo. Acaba que fico concentrada demais nas minhas merdas quando há tantas outras merdas infinitamente maiores com as quais eu poderia me distrair.
Desculpe, Poli (ou Ana?), está bem, sei que também há muitas flores nos jardins, lindas criancinhas nascendo e borboletas anunciando as belezuras do mundo.
Pessoas lindas que me amam e que eu amo, essas tenho mesmo coleção, com você encabeçando a longa fila.
Tenho andado muito dada aos desencantamentos, mas sei que dias melhores virão e, pra que sejam melhores de fato, estou fazendo um curso (dificílimo) de separação uns dos outros, cada dia um dia. Mas ando péssima aluna. Nas últimas provas tirei vários zeros e só um dez, assim mesmo foi só num pedacinho de um dos dias (confesso que já era noite), o resto, embolei tudo, uma verdadeira meleca. Mas quem sabe, com muito treinamento (credo! Tantos aniversários e ainda estou nesse estágio!)...
De qualquer maneira, valeu! Sempre é bom lembrar da sua importantíssima existência.
Também te amo e torço por você.
Beijão

segunda-feira, 14 de abril de 2008


FALTA

No meu estojinho de aquarela
faltou uma cor para hoje
Faltou outra para a falta em mim
Misturei duas para pintar um lírio
e dele fiz chá e dele morri

domingo, 13 de abril de 2008


PACOTE DE OCORRÊNCIAS

Vem uma ventania, traz um vendaval, deixa uma brisa que de tão boa parece pra sempre, mas vai que o ar se abafa. Abafado fica e demora. Demora o suficiente pra deixar vir um furacão que derruba tudo. Em pleno caos, uma obrigação de comemorar não se sabe bem o que.
Ninguém nasceu, alguém piorou mais um pouco, alguém desceu das montanhas, um amigo embolou-se e partiu.
As crianças crescem, percebem de leve que algo está fora de lugar, não muito mais que isso.
Algumas plantas morrem, bom que são de fácil reposição.
Amor é muito pra repor, amor mesmo dá trabalho e dura.
Ficar só dura também mais que muito.
A vida passa (já ouvi isso).
Difícil passar quando já bem na frente.
Mais ainda começar quando já bem na frente.

sábado, 12 de abril de 2008


NOITE

Bendita é a noite, que apaga o dia, que leva a dor para muito distante da claridade. Dor iluminada pelo dia é indecente e ostensiva, feia, medonha.
A noite acolhe a dor.
O silêncio é cúmplice do amor das crianças, seus sonos puros, seus cansaços desimpregnados, verdadeiros de motivos. Amor que não tem escrúpulo de ser manifestado em exageros sinceros.
Me acolhe, noite, me faz um carinho, faz de cada soluço meu uma gota de chuva, uma estrela, um esquecimento.

quarta-feira, 9 de abril de 2008


RAÍZES

Grotesca a imagem da mulher a arrancar suas raízes do chão com tanta dificuldade, a lhe custar esforço e dor. Eram como tentáculos, autônomos, ela os arrancava e eles se metiam a adentrar a terra por própria conta. Descabelada, cabelos e raízes a moverem-se, uma estranha dança de desgrudamento, de aflição.
Triste cena da mulher na luta do desgarramento, já que aquele solo não lhe permitia, aquele vento não lhe permitia.
Vai a mulher embora, arrastando suas raízes arrancadas e as raízes a puxar a mulher como se não quisessem desistir nunca.
E ela a dizer, essas não, essas não, que me bastem as outras de onde crescem as árvores reais (mesmo quando frágeis) que me fazem viver.

domingo, 6 de abril de 2008


PINGUELA

Ei você aí na ponte!

Não posso olhar, tenho medo de cair.

É longa mesmo, é estreita, nem é ponte, frágil pinguela.

Tenho que ir devagar, me custa.

Estou te olhando, vejo que você vai.

Vou por dever. Veja, lá atrás há um incêndio que consome tudo. Aqui, agora, uma névoa quase me tira a visão e ainda tenho que levar comigo o que me pertence.

E lá na frente?

Lá é longe, ainda. Mal consigo ver que existe, parece não ter fim a travessia.

É bela a sua roupa, seus cabelos estão crescendo, brancos.

Sei que posso voar daqui, perder os contornos, me dissolver na névoa, extraviar, virar outra coisa que também sou eu. Só que muito do que consigo eventualmente ver me dá náuseas, como um filme passado, sem sentido, sem graça alguma. E então me arrisco a dançar sobre esta longa e frágil pinguela, nesse equilíbrio precário, com meu vestido, meus cabelos brancos e meu sexo inquieto. Debruço meu tronco sobre estas cordas que servem pra algum apoio das mãos, debocho desse limite tênue entre o que se desfaz e o que ainda não existe, arrisco cair, dou risada e choro muito.
Mas chega, agora. Precisei dar esses gritos. Vou prosseguir.

Estou te olhando, vejo que você vai.

Eu e o que me pertence, mesmo que meus dedos sangrem quando se faz insuportável o peso da bagagem da qual não abro mão, mesmo quando se faz tão leve que as minhas asas içam meu corpo, querendo me levar pra onde não tenho limites nem contornos e os risos e os prantos são iguais. Mesmo assim.

Ei você aí na pinguela!

Me deixa ir.

quarta-feira, 26 de março de 2008


O BASTANTE

Gravei dez versões de “The man I love”.
Tenho uma versão verdadeira de um amor real.
Ia usar a palavra “apenas”, mas achei inadequada e injusta.
É o que é, bastante.
Uma versão de um amor real é suficiente, mais ainda é preciosa, até mais, prêmio.
Amor é conquista de anos e desapegos.
Amor é pra poucos, nem sei se pra mim.
Agora penso que é e exercito prazeres.
Prazeres são o que são, não outros.
Se eu for menos que agora, pode ser que me desvie.
Pode ser até que eu grave mais dez versões, todas lindas e todas me farão chorar.
Pois que pra chorar uma versão basta.
Pra amar basta mais ainda.

domingo, 16 de março de 2008


MELHOR ASSIM

Saído de um carro bem grande, um homem de cabelos brancos e chapéu preto toca a campainha de uma casa bem mais que bastante, porque rico. De costas, não saberá nunca de mim e nem que eu, que não sei dele, o fiz cenário dos meus devaneios.
Corro e no solo por onde passo uma suposição de cores dançam a música que me salva de só estar triste. Bem melhor assim.
Escuto Bach enquanto a cidade, abaixo de mim, salpica-se de pequenas luzes porque anoitece.
Pra lá da cidade, longe. E depois de longe não se sabe, ninguém.
Pretendo-me também longe porque sozinha. E debocho da minha condição porque preenchida de apropriações.
(águas me servem de presságios, vento é anúncio, também o silêncio)

O JOGO

Quem se perdeu?

A mulher.

Perdeu-se ou perdeu?

Os dois, obviamente.

E tendo perdido, procura?

É um jogo, requer estratégias, mudar algumas peças de lugar. O problema é que o tabuleiro do jogo é como um labirinto, só que sem muros. E daí que a cada curva ou desvio, uma paisagem se oferece, lhe interrompe o percurso e lhe rouba uma demora que já não possui mais. A mulher quer lugar algum, não quer jogar, quer achar nada e nem a si.
Uma flor no campo é o suficiente, a montanha (outra vez, a montanha) é tanto que corrompe o ar que respira. Causam-lhe motivos.
Em seu pranto derrama todas as cartas, todas as regras, chuta o tabuleiro, corre e deixa o mundo pra trás, perdido.
De não procurar é achada, atropelada, abusada, desviada, seduzida e deixa pra que a vida não simplesmente se acabe. Cumpre, pois que é dever do coração que o amor inundou pra sempre.

A mulher
do mundo,
do jogo,
do labirinto.

segunda-feira, 10 de março de 2008


O TRILHO E A TRILHA

Pois que há uma estrada e nela, obstáculos, e por ela passa esta de mim, aflita, sem poder parar onde quer com demora e até desperdício.
Há um trilho e uma trilha. Difícil permanecer no trilho, difícil não cair na trilha.
O trilho reclama o querer e a responsabilidade (onde também cabe um sem número de possibilidades estimulantes, paisagens, percursos, surpresas, seduções).
A trilha pressupõe os vacilos, os desvios, as quedas, os desafios, as fugas, as obsessões, uma inquietude domada pelo risco.
Feliz desta que percorre a estrada e que mesmo aflita, se arrisca a sair do trilho e a cair, se esborrachar, rolar, se atolar, se perder, desencontrar e se surpreender nos imprevistos da trilha.
Mesmo que muito, infinitamente aflita, a esperar um trilho que aprume e acolha seu querer forte como a montanha que se pode ver, admirar e percorrer
pelo trilho
pela trilha.

domingo, 9 de março de 2008


INSTRUÇÕES PRO DEUS SE  EU FICAR BEM VELHINHA

1- Sem uma saúde razoável, prefiro não chegar lá.
2- Que eu não caia na besteira de usar roupas de velhinha. Uma camiseta com uma saia longa de estampa de borboletas certamente vai me cair melhor.
3- Que eu tenha dinheiro suficiente pra comprar ótimos produtos de beleza, incluindo os cremes de última geração e maquiagens bem modernas.
4- Que eu não seja acometida pela preguiça, a não ser quando estiver deitada numa boa rede descansando.
5- Se eu não tiver um velhinho safadinho comigo, que as modificações hormonais me ajudem a não querer subir pelas paredes. Mas é claro que prefiro o velhinho safado.
6- Que haja velhos safados que admirem a beleza das velhas bem cuidadas e tenham o maior tesão por elas e não pelas mais jovens, menos inteligentes e mais bobas.
7- Que a minha conversa seja mais interessante do que as que eu ouvi na sala de espera do oculista (já viu a quantidade de velhos nessas salas? – os olhos ficam cansados de ver com o tempo). E que eu possa sempre achar uma armação de óculos bem “fashion”.
8- Que meus filhos não precisem cuidar de mim, que estejam por perto só para bons casos e boas risadas (e para um bom colo, ou ombro, que esses nunca lhes vão faltar).
9- Que o tempo se estique pelo direito de não ter que trabalhar. Tem muita coisa boa pra caber nas minhas horas diárias.
10- Que eu tenha netos e netas, que eu saiba acertar os presentes deles, que eles sintam conforto e liberdade na casa da vovó.
11- Como não é exatamente do Deus que eu devo esperar tudo isso, que não me falte alegria pra que eu mesma chegue lá.

quarta-feira, 5 de março de 2008


RAINHA DE COPAS

Sou a Rainha de Copas, de mim derramam corações. O plural deve-se ao exagero, um coração não me basta, atropelo meu destino por vocação ao desastre.

Cala-te, mulher, retoma-te, abre teus baús de sedas e brilhos, renova teu perfume, exala, provoca, sabes bem o que não cabe em ti e onde teu pranto estanca, vá ligeiro.

Convoco então meus soldados, ......., mas é este o meu exército? Assim, perdida estará mais esta batalha!

E por que continuar?

Não sei outro caminho.

Ah! Abre porque outro caminho não sabe, não é?

É.

Pobre rainha.

Rainha - o R é maiúsculo, minúsculo neste momento é o meu preenchimento. Sou a Rainha de Copas e confesso: o coração é só um.

Um só?

Um, só.

Huuummm...., rainhazinha pobre.

Pois é.

domingo, 2 de março de 2008

E lá se foram, um por um, todos eles.
DO PERCURSO

Do limite tênue
que separa tudo de tudo
Da corda bamba
que nos convida pro precipício
Prefiro o trapézio em que oscilo
enquanto arrisco meus saltos vitais

Nos caminhos de pedras
imprimimos nossas sombras
Nos caminhos mais argilosos
revelam-se reentrâncias e relevos
No ar, os cheiros que por pouco
nem mais reconhecemos
(dos desejos, dos cansaços, das intuições)
Nesse mesmo ar
dissipam-se nossos sonhos e verdades
num rastro bem mais sutil e efêmero

E em tudo estamos
finitos
e infinitamente
sós

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008


29 DE FEVEREIRO

E pensa bem se não existisse o dia 29 de fevereiro pra consertar o que fatalmente caminharia para um caos! As coisas vão caminhando e, de tempos em tempos, um dia inteiro é necessário pra que as estações não se alterem, pra que as chuvas não caiam inadequadamente, pra que o frio não se meta no verão. Pelo menos a idéia seria mais ou menos essa. Tudo bem que a natureza já anda dando seus sinais de certa rebeldia, alterada mesmo pela estupidez do próprio homem.
Mas não é dado ao dia 29 o valor que lhe cabe. Deveríamos fazer festa, comemoração!
Um dia a mais nos foi programado de quatro em quatro anos (e nem é essa exatamente a precisão) pra que se acerte um monte de coisas e passa assim batido?
Se o primeiro dia do ano é tão cheio de simbologias de renovação, pensa no tanto de votos que caberiam neste dia 29 de fevereiro, o dia do conserto, da arrumação, do ajeito.
Vai que eu é que estou precisando de voltar pra um prumo, pra fazer uns acertos, reencaixar uns desencaixes.
E quem não está?

domingo, 24 de fevereiro de 2008


OUTRA VISTA DAS MONTANHAS

Pois vai que na memória um se encontra repleto de declarações e descobertas de amor. Um se cansa porque é assim, cansável. Um finge não acreditar no frescor de um dia que vem depois de outro. E um se esquiva de seguir se embasbacando com os fatos imprescindíveis e convenientes que o fizeram amar de maneira intensa e declarada, um finge que não acredita que seu amor tem poder de amplitude e continuação. Mas um se trai porque seu amor é alvo e é resgatável e um percebe que o dia que vem depois do outro tem paisagem fresca de cores fortes e um é uma criança teimosa que finge não conseguir crescer. Mas um cresce com seu amor de rosas e estradas de terra vermelha, um cresce com seu corpo de cheiros e gestos de maravilhosa indecência porque um ama assim, mesmo que o negue, mesmo que se ponha muitas vezes a dizer pra si que as coisas se acabam simplesmente.
Olha um, o mar de montanhas e por trás, mais montanhas, entre elas os vales, entre os vales os buracos, os abismos, os intervalos. Também me tenho assim, mesmo que me despiste em transparências de cores e flores e trago tudo pra bem pertinho pra não me precipitar lá onde não alcanço.
Um sabe amar como ninguém e não sabe.
Também não sei.

sábado, 23 de fevereiro de 2008


LUGAR COMUM

Ela
colecionava orvalhos
Ele
amontoava pedras
(fazia crescerem paredes)
Ela embriagava borboletas
pra assistir a uma dança nova
Ele enfileirava silêncios
alimentava-os com pensamentos
depois, enfileirava palavras
(era envaidecido de domá-las)
Ela costurava fuxicos
emendava-os com incertezas
ia fazendo tecido
que servia pra vestido de noiva
igual para velório
igual pra inaugurações
Ele fazia construção
moldava e colocava cimento
moldava de novo
colocava mais cimento
(dizia que montava futuro)
Ela foi embora
e levou sua coleção de tolices

Ele ficou com as pedras
os silêncios
os cimentos
as palavras
e o futuro ficou pronto!

(ninguém nunca soube pra quê servia)