segunda-feira, 20 de setembro de 2010


DONA ESMERALDA
(para minha avó Lucrécia)

Dona Esmeralda fez tortas, bolos e muitos filhos.
Já que muito não lhe foi permitido, fez a primavera no vaso da sala.
Custava-lhe o tempo que passava.
Morreu repentinamente olhando as horas (há quem diga, o relógio).

sábado, 21 de agosto de 2010


CONFIGURAÇÕES

Tomei uma taça de vinho pra alegrar meu temperamento.
Ornamentei com flores o meu caráter - até mesmo pra que ninguém se engane.
A memória passada, enalteci com as cartas do meu pai.
A recente, com os ipês amarelos que, de esperta, não deixei escapar nenhum nos meus percursos.
As outras memórias, derramei sobre as montanhas e exercito fazê-las viver alternadamente, conforme a circunstância e a necessidade.
Como guia, o amor é o meu eleito.

terça-feira, 29 de junho de 2010


ENTRE UMA COISA E OUTRA

A cidade é ainda mais aborrecida, se repararmos que a maioria dos carros varia entre tons de cinza e preto. Pra ser mais precisa, não varia.

Lançaram um novo no mercado que a propaganda exalta a diversidade das cores. Os únicos que já vi circularem na rua eram prateados – outro tom de cinza.

Toda vez que vejo um carro que tem alguma cor eu reparo, acho que porque ando cansada de tanto cinza. E preto.

Não que cinza seja feio, eu gosto também. Mas é só dar uma olhadinha breve na natureza pra perceber que é cheia de cores e que é bem bonita.

Meu carro é verde.

quinta-feira, 13 de maio de 2010




AFAZERES

Sim, pois não, o que é que o senhor deseja?

Não, pois sim, tomarei providências.

Pode ser daqui a oito minutos e meio?

Claro que posso, arranjo sim.

Já liguei, não atenderam. Já liguei, vão entregar.

Não, mamãe. Claro, mamãe. Que bom, mamãe!

Ô, meu amor, imagina! Te amo também, maior que o céu e o universo, filhinho.

Não fez? Por quê? Ah, sei. Hum hum.

Você é tão lindo!

Obrigada, Maria, já vou buscar.

Hoje não? Amanhã à tarde pode ser? Três horas? Tá eu me ajeito.

Agora? Não tenho o número aqui, passo lá depois, pego e te ligo.

Tá ótimo!

Não, acho que é demais, muito trabalho pra pouco.

Oi! Pode sim, entra! É? Puxa vida, entendo, vou ver o que posso fazer. Me lembra, tá?

Nossa, que lindo!

Desculpe, esqueci. Desculpe, agora não dá. Desculpe.

(mais uma, eu choro. Muito.)


sexta-feira, 16 de abril de 2010




BONS MOTIVOS

Os dias de abril são comoventes em beleza.

Ao lado da escola dos meus filhos tem um curral devidamente habitado. Às vezes as vacas passam na porta. Tem também micos à procura de sobra dos lanches das crianças.

Um menino de sete anos que mora numa favela respondeu que sexo é “a deitada do amor”.

No meio da correria algo sinaliza que a vida pode ter outro ritmo.

Num prédio onde trabalho tem sereia, gato, jacaré, girafa e outras coisas interessantes pintadas na fachada.

Pra onde gosto de ir nos finais de semana, vou cada vez mais.

Tem muita coisa que não importa mais.

terça-feira, 30 de março de 2010


PENSAMENTOS PRA IR PARA AS MONTANHAS

Disse a um amigo que aconselhar deus complicaria muito a minha vida. Brinquei que posso tentar com formiga, cachorro, gato também muito.

Tenho cá comigo que a tecnologia me ajuda em muita coisa. Não pra aconselhar ninguém, mas pra ficar mais perto, até pra receber flores do Japão.

Nos meus intervalos, vou pras montanhas. E sigo tecendo um caminho pra poder inverter intervalo.

Lá é um perto que é longe e que me acolhe depois de correr a semana inteira. Vejo lá de cima o mundo que cabe nos meus olhos. É tanto, que de imaginar vejo o outro lado que não se mostra. Mas é daquele jeito, com menos sonhos e mais agoras.

Por isso estou perdoada de querer um pouco de cada coisa. Não é por ganância, mas vontade de viver o tanto que me é possível, sem atrapalhar ninguém.

Então, dar conselhos é muito pra mim, vez ou outra posso até sugerir um pouco. É que tem coisa que é tão boa que tem que ser boa pra mais gente. Então divido na medida do meu humilde alcance.

De sorte e empenho tenho um nome pra bordar com cores variadas no passar dos meus dias.

E os meus amigos.

terça-feira, 9 de março de 2010


CANÇÃO DE FINGIR


Um diluidor de saudades escapou do último escrito.

Porque os sonhos mudaram suas dimensões, perderam em cheiro, em cor, tato.

Assim: nem mais tiram o fôlego, nem mais espicham o tempo.

Não encantam os caminhos por onde nasceriam as mais lindas e improváveis flores.

Inebriados, esquivaram-se por becos, cantos, pobres andarilhos das memórias.

Vem comigo, finge que lá adiante nos encontraremos com o mesmo frescor,

na mesma exuberância e beleza,

no mesmo sonho.

sábado, 20 de fevereiro de 2010


LISTA DE DESEJOS


Um silêncio que adulterasse o excesso.

Pincel pra colorir as esperas longas.

Um manto pra vestir o dia de tardes compridas.

Digestivo potente para sapos engolidos.

Linhas cor-de-rosa e brancas pra bordar flores no outono.

E as mais variadas pra bordar um mesmo nome no passar dos meus dias.

Horas de acréscimo a cada tempo perdido.

Um continuador de sonhos.

Também um interruptor.

sábado, 30 de janeiro de 2010


OUTRA LINGUAGEM

Se pudéssemos acessar no fundo dos olhos o que nenhuma palavra jamais traduziu.

Uma outra linguagem, um outro raciocínio – grandes invenções ao longo de uma vida

em que mais se cumpre

do que se vive.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


OUTRO LADO

Assim como daqui para as montanhas e de volta, com esta intensa freqüência.

Assim talvez como seria se eu fosse para o outro lado do mundo e de volta.

Talvez, porque não sei o outro lado.

Nas montanhas me movo com intimidade e algum sossego.

Percebo que lebres e pássaros entre outros nos reconhecem como bichos, só que bem pouco.

Sigo a debater com o tempo que não dá tréguas.

Escapo quase nada.

Devo pra mim um tanto de coisas que não se encaixam nas minhas poucas janelas.

Construo com limitações uma nova possibilidade.

Olho as flores e desejo todas pra mim.

Pois que então as tenho em fartura e esplendor.

Pra que comigo elas viagem em sonhos pra onde não sei.

Para o outro lado.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


SITUAÇÃO


Que está o tempo a se fechar em nuvens.

Que estão os vértices a se fecharem em linhas.

Que está a hora a se acabar em nada.


E então chove.

E o que sei não é para se dizer.

Que me escutem outros sentidos, não os ouvidos.


Acharão onde não falto,

onde algo surpreende

e me redime.