quinta-feira, 19 de julho de 2007


PRA UM AMIGO

Há um prazer em olhá-lo a vigiar o rio. Parece-lhe bela sua solidão. Ele adora as montanhas e não se move. Os dias passam, o rio passa, as crianças crescem e ele é belo, porque em seu desejo algo se move com o rio. É bom vê-lo e é bonito o que ele não diz. Ele procura as montanhas e sabe que às vezes ela vai vê-lo e gostar dele.
Talvez ela não vá mais.
Porque tudo se move.

quarta-feira, 18 de julho de 2007




PIANO

No piano calaram-se todas as notas por muito tempo. E o coração que achava que batia.
Os dedos tomados por outros ofícios e carícias dançavam no silêncio. Ninguém mais sabia que havia um piano que também não mais se sabia. Entretanto, nunca foi pensado vendê-lo, pois que ocupava um espaço naquela sala a hospedar as memórias dos porta-
retratos e pontuar o silêncio com sua possibilidade.
Há quem jura ter ouvido algumas notas como fantasmas perdidos, quando não havia ninguém na casa. E há quem jura ter visto a mulher que, ao fingir que também não se sabia, dançava ao som da música de seu próprio espectro que tocava.
No silêncio.
Na noite.
Por muito tempo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007


CONVITE

Nos dias de árvore, agarram-se os pés no chão e não há quem os arranque. Bom mesmo é sair por aí a conversar com insetos, lagartos e pedras. Tem gente de tudo quanto é categoria e a gente muda de categoria de acordo com as conformidades. Tem dias de folha que servem pra sair por aí voando conforme o vento. Tem dias de vasculhar as caixinhas de esquecimento onde moram os guardadinhos, uns que nem dizem mais nada. Tem dias de ouvir que o corpo pede chazinho e chamego. Difícil é poder usufruir conforme os dias, pois que pra viver tem muita tarefa e desencontro. Dá vontade é de fugir pro mato com boa companhia e um cachorro pra ficar deitado no chão, se coçando do lado da rede e farejando o que a gente não sabe. Podia ser cachorra. Tá feito o convite (nem que for só pra imaginar).

terça-feira, 10 de julho de 2007

VALES ENTRE UM RIO


Entre os vales passava um rio e neste rio ia uma correnteza forte, muito forte, não era possível atravessar nem nadar, nada era possível.
Ele dizia lá do outro lado bem alto pra que ela ouvisse do lado de cá e dizia e dizia, ela olhava as palavras, todas elas derramando, se juntando à correnteza, nada podia ser feito.
Ela dizia do lado de cá pra que ele ouvisse do lado de lá, as palavras derramando na correnteza, nada.
Ela olhou e acenou e ele olhou através dela, e atrás dela havia um espelho onde ele se via.
Ela acenou novamente e olhou com força, com seus olhos de chuva. E viu um homem através de uma névoa. Um homem que ela não conhecia.
Choveu em cima dele e todo o vale do outro lado do rio se prestou à chuva.
Sem conseguir parar de falar, ele, através da chuva tentava vê-la, o corpo, os olhos chovendo, mas só via, através dela, o espelho.
Ela se despiu e começou a caminhar, ele a seguia também caminhando, mas não enxergava seu corpo nu. E no espelho que ele via, chovia.
Ela correu e dançou e o vale do lado de cá se atirou à primavera.
Mas nos olhos dela, de chuva, chovia. Chovia nos olhos dela enquanto ela dançava nua – a primavera era, por demais, inevitável. E nem ela queria evitá-la com seus olhos de chuva.
E no espelho, chovia.
Foi um desaforo de flor brotando pra tudo quanto era lado, no lado de cá do rio. Um desaforo de cor e cheiro e as crianças vieram também nuas, rolar sobre a primavera.
E nuas, não escondiam nada.
As crianças quiseram atravessar o rio. Como ela também quisera um milhão de vezes.
Nadaram como se não houvesse correnteza e do lado de lá se puseram a caminhar na chuva.
Ela, do lado de cá, olhava temerosa e ao mesmo tempo agradecida de que as crianças podiam atravessar o rio, sempre.
As crianças gostam da primavera e da chuva e as palavras para elas ainda dizem pouco.
A chuva diz muito, e também o espelho, o rio, os vales e a primavera.

domingo, 8 de julho de 2007


VISTA

Reinicio a vida
Vejo o mundo todo
do alto de um morro
De lá vejo um mar
de montanhas
E em cada contorno
que a tarde ondula
mora um segredo
em cada tom indecifrável
a cor da justiça
da compaixão

Assim como habita
entre as pequenas ondas
dos meus magros seios
todo o amor
que não consigo

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O CONTRATO

para a Gi

A menina, por vocação, se prestou a bailarina. Daí que na escola onde ela aprendia, acharam que a então mocinha prestava pra ser professora. Em pleno aprendizado da dança (que tem a duração da vida), ela podia agora começar a também ensinar. Assim, a escola contratou a menina, já moça, e solicitou os documentos para oficializar o ofício devidamente. Entre os tais documentos necessários, foi-lhe pedida uma “abreugrafia”.
Nossa dançarina, com seus pensamentos de giros e saltos, não teve dúvida: estavam pedindo sua “biografia”. Alguém que vai ensinar dança, precisaria dizer sobre si mesma, sobre sua vida. Ela então ficou apertada, ao se ver com tamanha tarefa.
Começaram a cobrar-lhe o documento e ela, aflita, adiava a entrega. Era preciso dedicação e capricho. Depois de um tanto de cobrança e trabalho, chegou a bailarina na escola e entregou aquelas folhas escritas com tanto cuidado. Ao se darem conta do equívoco da menina, riram muito, sem constrangimento, e explicaram que precisavam era da “abreugrafia” e não da “biografia” da moça, coisa de pura burocracia. Ela sim, ficou muito constrangida e gravou o acontecido em sua “biografia”.
Fiquei comovida com essa história de pedirem a radiografia de seu pulmão, e ela, por engano e ingenuidade, entregar com a devida insegurança, a radiografia da alma e do coração.
Coisas de bailarina.

quinta-feira, 5 de julho de 2007



PAUSA


Peço licença
pois em ti espreito, flor
a desprender em cada pétala
o arrastado desses dias

És bela, mas passas
e perdes teu viço
bem antes da minha pausa

estou a me prestar a nada

quarta-feira, 4 de julho de 2007


PERMANÊNCIA

Eu disse: - Senta, amiga, ao meu lado, nesta sombra, neste chão adornado de amarelo das flores que o ipê desprende. Vem comigo imaginar que se desprenderão todas elas até que um ciclo inteiro se cumpra e outras tão amarelas brotarão e que isso é certo. Vem, amiga, vamos falar de intimidades – fazemos isso tão bem, com propriedade e sintonia. Vamos falar e deixar que nossos olhos falem o que as palavras não sabem – fazemos isso tão bem. E então, lê comigo esses poemas como quem compartilha o vinho mais saboroso. Lê comigo até ficarmos tontas e saciadas. E assim se deu. E no verão que seguira, da tempestade, um raio interrompeu as possibilidades do ipê.

E isso sim, era certo.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

VENTANIA

para Mário Quintana


Mário Quintana, em uma de suas belas crônicas, me deu (a mim e a quem quisesse para si) a palavra “ventania”. Corri a fechar as janelas pois que a palavra me pegou de maneira devastadora. Voaram os papéis, as cortinas , meus cabelos e meus pensamentos.
Pus-me a olhar a ventania através do vidro no balé das árvores e das folhas desgarradas. E pensei que olhar a ventania é enxergar o invisível, ver somente os seus efeitos e neles reconhecer o que só é possível sentir. Ventania causa efeitos físicos e afetivos – como não se afetar ao observar atentamente a ventania?
Fui me sentindo assim meio desarrumada pela ventania que, em seu rumo, roubou o meu. Desarrumada me vi: sem rumo, sem norte, desnorteada (será que era vento sul?).
Em pleno espetáculo de ventania, emocionada, agradeci ao escritor pelo generoso presente que me pôs de encontro com a minha desordem.
E percebi que algumas outras palavras “invisíveis” podem se tornar espetáculos para qualquer observador, desde que ele se preste a esse desejo. Por exemplo, “calor”, “frio” e mesmo “saudade”.

domingo, 1 de julho de 2007