segunda-feira, 5 de agosto de 2013


















TRISTE SENHORA

Por vezes me tornei uma senhora triste.
Sem ventos pra decifrar
nem mistérios pra desvestir.
Triste assim, por desleixo e circunstância.
E senhora porque a vida não quer entender
que eu não envelheço.

domingo, 14 de abril de 2013


A LEI

A morte e o amor me impregnaram de mim.
Vou passar, disse o rei.
Passarei, também digo.
E o rei passou
e passo com um passo que pensei não ter mais comigo.
E o rei morreu.

ainda não eu.


domingo, 31 de março de 2013



ALGUMAS EXPLICAÇÕES

Porque lá de cima as nuvens estão abaixo.
Porque obnubilada foi uma palavra que me ensinou minha mãe.
E de tanto olhar pensei que desenho como quem escreve e que também o contrário.
E que de todo jeito a vida vai passar
mais.

domingo, 24 de março de 2013


















OUTRAS LEIS


Existem leis apartadas das comuns dos homens, que são de outras verdades.

Regem uns tipos de sentimentos e ousadias, assim como determinam as cores de uma tarde - não de uma qualquer.

Tingem de espanto as leis comuns. Aparecem como ervas estranhas à folhagem cultivada. Mas não provocam desejo algum de arrancá-las. Podem tomar um jardim inteiro.

Trazem notas de almíscar e patchuli aos aromas da noite. Bergamota e lavanda aos de qualquer manhã.

Moldam os redondos das pedras e promovem o aveludado seco da capa de um livro. Ou de um caderno com as páginas assustadas de vazio.

Represam um tsunami, silenciam o coro convicto de mil vozes.

Para o que é depois de pra sempre.

segunda-feira, 7 de maio de 2012


VERTIGEM

Uma vertigem me lança em queda livre.

Entre sonhos e verdades frágeis vislumbro, enquanto caio, um jardim onde desejos maduros espalham as sementes mais férteis.

É assim depois que se passa pelo topo da vida. Uma vertigem de quem se depara com uma imensa descida, um abismo, um precipício.

Mas o salto é só um delírio. Real, porém, o suficiente para que se possa ver ao longo da vertiginosa queda uma coleção de símbolos, valores e preconceitos cambaleando nas beiradas das estantes. Parecido com a queda da Alice pelo buraco.

Entre beber um gole do frasco e comer um pedaço do bolo, escolho ser do tamanho que sou.

E ao bancar minha escolha recebo de prêmio uma chave, também assim como Alice. Mas a porta que ela abre não me leva ao país das maravilhas.

Porque já acordei.

terça-feira, 24 de abril de 2012


FEITIÇO

Tiro uma carta da manga
e umas fotos do baú.
O amor precisa de pouco
pra derramar pros lados de tanto.
Se não acho um novo feitiço, envelheço além de rugas.
Por isso devolvo para o tempo uma magia que o confunda.
E sigo com meus milagres.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


LIÇÕES


(quem muito se abaixa, o cu lhe aparece – já dizia minha bisavó)


Instante é menor que momento.

Aurora é feminino e ocaso, masculino. Também crepúsculo.

O antônimo é o contrário sem julgamento.

Os opostos também se repulsam.

Quem se presta ao abismo fica abismado.

Ao precipício, precipitado.

A memória é uma coleção de lembranças.

Parcimônia é mais elegante que economia.

Autocrítica, egoísmo, vaidade, omissão, condescendência, timidez, humildade, burrice, ignorância ou vergonha - podem justificar um mesmo discurso.

Justificar é achar o argumento que torna um erro menos errado.

Contexto faz uma coisa ser bem melhor do que é. Ou pior.

A relatividade também não é absoluta.

sábado, 19 de novembro de 2011


ERRO


Até as estações se confundiram e o frio invadiu o verão que se anunciava.

O poema que alguém declamaria se desfez em palavras de silêncio.

O que elas então não mais diziam invadiu as frestas

e as possíveis conversas.

Refletiu no espelho como tempo passado

e fez o dia anoitecer mais cedo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011


ENQUANTO ESPERO

Umas poucas vontades são suficientes para justificarem a caixa de lápis de cor.

E uns outros guardados de tinta e papel.

Num sonho levanto-me para tomar o café da manhã e antes que eu possa olhar suficientemente a paisagem, já anoitece.

Pesadelo dos bens ruins.

Em outro, deixo escorrer entre meus dedos os brilhos capturados de estrelas e por tal façanha sou condenada a ter as pontas dos meus cabelos cortadas e jogadas para dar de comer às formigas e a outros insetos.

Muito ruim também.

Com freqüência giro em torno de mim e de uns poucos objetos até ficar bem tonta e infeliz.

Depois penso em um lugar onde quero chegar e passar muito do meu tempo.

E nesse lugar faço caberem e serem felizes umas outras pessoas.

Melhoro então o pensamento

e aguardo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011


NASCER

para as mães

Não é preciso primavera para se vislumbrar alguma coisa que nasce.

Quando o sol se põe nasce a noite.

De longe, ao observarmos o por do sol, percebe-se que se formos desarvoradamente ao seu encontro, permaneceremos nele pra sempre. E poderemos ver o crepúsculo dando voltas na terra.

Mas isso é um pensamento.

Também é um pensamento que a tarde tem asas cor de fogo que se fecham no horizonte.

Igual no meu sentimento.

No cenário escuro de uma imensa noite, pode-se ver nascer um amor, uma saída, uma mudança ou um filho.

E outro,

em um outro amanhecer.

terça-feira, 29 de março de 2011


CANTIGA DO DESMITO

para as minhas amigas


Ao cumprir o esperado

da espera do amado,

teço minhas tramas,

enfeito meu bordado.

Mas não penses que o faço

na conformidade de uma sina.

Do meu canto de espera

não ouvirás triste lamento.

À dor da saudade,

cantarei até obscenidades

e direi ao vento

que mantenho uma porta aberta

pra eventuais visitas.

E se demorares demasiado,

meu amado,

me enfeito com meu tecido

(dever cumprido).

E serve o teu jantar

que eu não vou voltar.

sábado, 19 de março de 2011


ÁRVORE


Pretendi criar raízes e finquei os pés e finquei os pés bem aqui.

Fiz crescer um tronco sólido e uma copa espessa de folhas bem verdes eu produzi.

Minha alma pegou carona no pólen da primeira flor que concebi.


sábado, 26 de fevereiro de 2011




PORVIR

A tarde tem anseio de outono e cai sobre os olhos cansados.
O que se poderia à margem do rio corre com as águas.
O porvir ainda não mostrou seu encanto.
A utilidade é um verme que assombra até o amor.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


QUASE

Enquanto a tarde quase terminava eu quase escrevi uma coisa que me ocorria e quase fiz um desenho.
Ando quase no ponto de tomar umas decisões e atitudes importantes. Quase tive uma boa idéia.
Quase me lembrei de umas coisas que eu não podia esquecer e quase liguei para uma amiga.
Vi que no quarto o homem e a cachorra cochilavam e estavam quase iguais.
Fiquei na rede na hora em que era quase noite. Quase nada era muito necessário.
Uma ordem que me deixou quase feliz.

domingo, 16 de janeiro de 2011


RECORDAÇÕES

Esse negócio de desvestir um santo pra vestir outro pode ser mais ou menos assim um revezamento. Os santos são setorizados conforme suas aptidões e quando não dá pra deixá-los todos bem vestidinhos, a gente elege o que a circunstância solicita.
Não dá pra se ter tudo de uma vez.
Tem momentos que são para as lembranças e outros para os acontecimentos. Como tem lembrança que acontece mais do que acontecimento, está bem bom assim. Considero ganho o meu tempinho aparentemente perdido.
E cuido de guardar as preciosidades em seus lugares devidos. Pra que eu possa tê-las quando me for conveniente.

sábado, 1 de janeiro de 2011

FRUTA DA ESTAÇÃO

O acúmulo de tarefas faz pesarem as pálpebras.
Instala-se um silêncio.
Por muitas vezes saboreia-se as amoras de um mesmo pé. Um sentimento é registrado num pequeno pedaço de papel que se vai com as amoras.
Depois, vão-se as jabuticabas entre outras importâncias. Nos dias de agora, são as lichias que melam os dedos e, em exagero de fartura, também enchem as vistas.
O silêncio cala estes e outros assuntos.
E assim, os pincéis, canetas e lápis esperam. Mas sem descanso.
É empurrado um pouco para frente um tempo que a fé alimenta e aumenta.
Mas as pálpebras já estão mais pesadas entre outros pesos.
Deixa estar. Depois há uma volta.
Com acréscimos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


DONA ESMERALDA
(para minha avó Lucrécia)

Dona Esmeralda fez tortas, bolos e muitos filhos.
Já que muito não lhe foi permitido, fez a primavera no vaso da sala.
Custava-lhe o tempo que passava.
Morreu repentinamente olhando as horas (há quem diga, o relógio).

sábado, 21 de agosto de 2010


CONFIGURAÇÕES

Tomei uma taça de vinho pra alegrar meu temperamento.
Ornamentei com flores o meu caráter - até mesmo pra que ninguém se engane.
A memória passada, enalteci com as cartas do meu pai.
A recente, com os ipês amarelos que, de esperta, não deixei escapar nenhum nos meus percursos.
As outras memórias, derramei sobre as montanhas e exercito fazê-las viver alternadamente, conforme a circunstância e a necessidade.
Como guia, o amor é o meu eleito.

terça-feira, 29 de junho de 2010


ENTRE UMA COISA E OUTRA

A cidade é ainda mais aborrecida, se repararmos que a maioria dos carros varia entre tons de cinza e preto. Pra ser mais precisa, não varia.

Lançaram um novo no mercado que a propaganda exalta a diversidade das cores. Os únicos que já vi circularem na rua eram prateados – outro tom de cinza.

Toda vez que vejo um carro que tem alguma cor eu reparo, acho que porque ando cansada de tanto cinza. E preto.

Não que cinza seja feio, eu gosto também. Mas é só dar uma olhadinha breve na natureza pra perceber que é cheia de cores e que é bem bonita.

Meu carro é verde.

quinta-feira, 13 de maio de 2010




AFAZERES

Sim, pois não, o que é que o senhor deseja?

Não, pois sim, tomarei providências.

Pode ser daqui a oito minutos e meio?

Claro que posso, arranjo sim.

Já liguei, não atenderam. Já liguei, vão entregar.

Não, mamãe. Claro, mamãe. Que bom, mamãe!

Ô, meu amor, imagina! Te amo também, maior que o céu e o universo, filhinho.

Não fez? Por quê? Ah, sei. Hum hum.

Você é tão lindo!

Obrigada, Maria, já vou buscar.

Hoje não? Amanhã à tarde pode ser? Três horas? Tá eu me ajeito.

Agora? Não tenho o número aqui, passo lá depois, pego e te ligo.

Tá ótimo!

Não, acho que é demais, muito trabalho pra pouco.

Oi! Pode sim, entra! É? Puxa vida, entendo, vou ver o que posso fazer. Me lembra, tá?

Nossa, que lindo!

Desculpe, esqueci. Desculpe, agora não dá. Desculpe.

(mais uma, eu choro. Muito.)


sexta-feira, 16 de abril de 2010




BONS MOTIVOS

Os dias de abril são comoventes em beleza.

Ao lado da escola dos meus filhos tem um curral devidamente habitado. Às vezes as vacas passam na porta. Tem também micos à procura de sobra dos lanches das crianças.

Um menino de sete anos que mora numa favela respondeu que sexo é “a deitada do amor”.

No meio da correria algo sinaliza que a vida pode ter outro ritmo.

Num prédio onde trabalho tem sereia, gato, jacaré, girafa e outras coisas interessantes pintadas na fachada.

Pra onde gosto de ir nos finais de semana, vou cada vez mais.

Tem muita coisa que não importa mais.

terça-feira, 30 de março de 2010


PENSAMENTOS PRA IR PARA AS MONTANHAS

Disse a um amigo que aconselhar deus complicaria muito a minha vida. Brinquei que posso tentar com formiga, cachorro, gato também muito.

Tenho cá comigo que a tecnologia me ajuda em muita coisa. Não pra aconselhar ninguém, mas pra ficar mais perto, até pra receber flores do Japão.

Nos meus intervalos, vou pras montanhas. E sigo tecendo um caminho pra poder inverter intervalo.

Lá é um perto que é longe e que me acolhe depois de correr a semana inteira. Vejo lá de cima o mundo que cabe nos meus olhos. É tanto, que de imaginar vejo o outro lado que não se mostra. Mas é daquele jeito, com menos sonhos e mais agoras.

Por isso estou perdoada de querer um pouco de cada coisa. Não é por ganância, mas vontade de viver o tanto que me é possível, sem atrapalhar ninguém.

Então, dar conselhos é muito pra mim, vez ou outra posso até sugerir um pouco. É que tem coisa que é tão boa que tem que ser boa pra mais gente. Então divido na medida do meu humilde alcance.

De sorte e empenho tenho um nome pra bordar com cores variadas no passar dos meus dias.

E os meus amigos.

terça-feira, 9 de março de 2010


CANÇÃO DE FINGIR


Um diluidor de saudades escapou do último escrito.

Porque os sonhos mudaram suas dimensões, perderam em cheiro, em cor, tato.

Assim: nem mais tiram o fôlego, nem mais espicham o tempo.

Não encantam os caminhos por onde nasceriam as mais lindas e improváveis flores.

Inebriados, esquivaram-se por becos, cantos, pobres andarilhos das memórias.

Vem comigo, finge que lá adiante nos encontraremos com o mesmo frescor,

na mesma exuberância e beleza,

no mesmo sonho.

sábado, 20 de fevereiro de 2010


LISTA DE DESEJOS


Um silêncio que adulterasse o excesso.

Pincel pra colorir as esperas longas.

Um manto pra vestir o dia de tardes compridas.

Digestivo potente para sapos engolidos.

Linhas cor-de-rosa e brancas pra bordar flores no outono.

E as mais variadas pra bordar um mesmo nome no passar dos meus dias.

Horas de acréscimo a cada tempo perdido.

Um continuador de sonhos.

Também um interruptor.

sábado, 30 de janeiro de 2010


OUTRA LINGUAGEM

Se pudéssemos acessar no fundo dos olhos o que nenhuma palavra jamais traduziu.

Uma outra linguagem, um outro raciocínio – grandes invenções ao longo de uma vida

em que mais se cumpre

do que se vive.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


OUTRO LADO

Assim como daqui para as montanhas e de volta, com esta intensa freqüência.

Assim talvez como seria se eu fosse para o outro lado do mundo e de volta.

Talvez, porque não sei o outro lado.

Nas montanhas me movo com intimidade e algum sossego.

Percebo que lebres e pássaros entre outros nos reconhecem como bichos, só que bem pouco.

Sigo a debater com o tempo que não dá tréguas.

Escapo quase nada.

Devo pra mim um tanto de coisas que não se encaixam nas minhas poucas janelas.

Construo com limitações uma nova possibilidade.

Olho as flores e desejo todas pra mim.

Pois que então as tenho em fartura e esplendor.

Pra que comigo elas viagem em sonhos pra onde não sei.

Para o outro lado.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


SITUAÇÃO


Que está o tempo a se fechar em nuvens.

Que estão os vértices a se fecharem em linhas.

Que está a hora a se acabar em nada.


E então chove.

E o que sei não é para se dizer.

Que me escutem outros sentidos, não os ouvidos.


Acharão onde não falto,

onde algo surpreende

e me redime.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009


DESORDEM


Pessoas são invenções muito imprecisas.

Freqüentemente invento uma de mim que não há.

Como uma espécie de desejo ou compensação.

Tapar buracos é tarefa que requer dedicação e amor.

Uma árvore pode não dar as melhores frutas todos os anos, presume-se falta de alimento, pode ser.

No meio de tantas imperfeições, posso ser uma flor amarela assustada entre hortências, buganvílias, azaléias – importa pouco.

Contanto que eu possa eventualmente faltar.

Difícil organizar tudo, escapar do caos - monstro de dentes afiados que me persegue.

Tanto pra fazer, tanto lugar pra ir.

Rodo em círculos e temo deixar escapar o melhor do tempo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009


JANELA
pra minha mãe

“A primeira namorada, tão alta que o beijo não alcançava, o pescoço não alcançava. nem mesmo a voz a alcançava. Eram quilômetros de silêncio. Luzia na janela do sobradão.” (Carlos Drummond de Andrade)

A chuva desaguava o azul das hortênsias quando uma vontade bem pobrinha me levou da cadeira à janela.
O tempo era apressado e inconveniente.
Não cabia nele nem as estampas dos vestidos das mulheres de Klimt, nem cada ponto do bordado que eu faria para o vestido do meu próprio casamento.
Pra consolar minha conformidade imaginei que naquela janela era eu a Luzia de Drummond e que de algum outro tempo alguém secretamente olhava
o meu sobrado.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


O TERCEIRO

Se eu fizesse com que as cores desaguassem sobre o papel com mais freqüência pra que eu pudesse a cada dia inventar uma nova paisagem improvável.

E se nelas diluíssem meus enganos e uma estranheza que me persegue.

É que não sei o que vinha sabendo ao longo dos tempos. Desaprendi algumas vontades e ainda não sei que coisa nova é essa

que me convoca.

domingo, 20 de setembro de 2009


SEGUNDO MOMENTO


O dos dias que passam sem que a gente queira.

Em que os olhos treinam alcances.

Em que estar não deveria consumir tempo.

Dias das cores difíceis de nomear.

Das flores que na certa vão durar mais

que esta desejada demora.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

PRIMEIRO DELÍRIO DE UMA PROVÁVEL SÉRIE

Quero andar num caminho de pedras redondas, com borboletas amarelas a voar suavemente em torno dos meus pés.

Em volta tudo é cinza e bom, nem é preciso ver a distância.

Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.


Tenho muito a cumprir.

Eu queria que me deixassem só pra essas coisas e pro amor.


terça-feira, 25 de agosto de 2009


FIM DA ESTAÇÃO

Uma boneca de papel machê pende na porta do quarto e gira à mercê de alguma brisa. Tem posição dramática, cabelos cor de laranja e um vestido que até podia ser meu.

O menino não sabe o mundo e se arrisca.

Belos são os olhos do menino, às vezes frutas doces, às vezes chamas flamejantes, muitas vezes não sei.

Confio no passar das estações, confio nas boas raízes.

Hoje, ainda do frio, contemplo uma árvore que promete folhas novas para a primavera.

terça-feira, 18 de agosto de 2009


INCOMPARÁVEIS


Rosas de muitas cores.

Picolé de groselha, daquele que vai ficando esbranquiçado no final.

Comida quente e molhada na noite fria.

Manta macia nas pernas pra ver filme em casa.

Beijo na boca e conseqüências.

Meninos fazendo bagunça na cama da gente pela manhã.

Sair da cidade.

Não sair de casa.

Não ter que.


Sonhar e viver um sonho bom.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


OUTRA VISTA

para Rosana e Silvana

Havia a mulher que queria domar peixes.

Como se tentasse evitar a queda da água pelas pedras no curso do rio.

Custou-lhe acreditar que não podia.

Hoje olha com mais calma as montanhas.

Acredita que pode construir, com capricho e aos poucos, uma rotina com mais janelas.

Pelo menos por enquanto.

Cabe tão mais que nem imaginava.

Um pássaro a reconhece.

As flores nas árvores das ruas lhe fazem festa.

A estrada é daqui pra muito, que de tanto, pra sempre.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


UNS DIAS

Na beira do rio ele supôs semear peixes. Era pra ser uma praticidade. Achei mais pra bonito.

Observei como as borboletas se juntam no barro da margem.

Uma outra, azul cintilante, pousou perto de nós na pedra. Ele se remeteu às bandejas e cinzeiros que elas enfeitavam em outros tempos, felizmente em desuso. Achei engraçado porque eu quase nem me lembrava.

Aqueles poucos dias se passaram assim, com essas ocorrências além de outros afazeres prazerosos.

Se fossem muitos mais os dias, era melhor ainda.

segunda-feira, 6 de julho de 2009


PRA COMEÇAR A SEMANA


Encontrar no tumulto, a brecha.

No sufoco, o tempo.

Receber o agrado com demora.


Descobrir no caos o que causa.

Do afeto, ter cuidado.

Descaber de motivos.

Desobedecer ao previsto.

Por nenhuma dor ser dominado.


Poder inverter o esperado.


O amor aprendido,

esparramar todos os dias,

pra todo lado.

terça-feira, 23 de junho de 2009



BORDADO


Um ponto mais e esqueço do trânsito e do motorista estúpido.

Mudo a cor do tecido enquanto nem me lembro dos prédios enormes que se erguem no meu percurso diário, agressivas construções a mudar a paisagem e o fluxo, antes de relativa tranqüilidade.

A linha será vermelha agora, que nem me lembro dos diálogos interrompidos, das palavras cruéis, dos silêncios omissos.

E no centro se faz uma flor e quase nem penso.

E no outro, um botão.

As mãos brincam neste bordado quando quase nem sei que o tempo não me pertence.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


O OUTRO TEMPO

 

Por trás do tempo passa um outro tempo que nem sempre se percebe (tem gente capaz de jurar que não existe).

Nesse tempo pode-se olhar a esmo e com demora, tempo em que cabe.

Não há pressa e nem prazos e é só querer que tudo se estica.

Pode-se não querer nada e só esperar o tanto do desejo.

Os dias são repletos ou parados, mas sempre grandes, num tempo que quase não se vê passar.

Por trás do tempo é que se faz também o sonho.

É desse tempo que saíram as cores da tarde.

Os desenhos das montanhas.

Uma chuva na varanda.

Esse seu cheiro que eu sempre soube.

 

terça-feira, 26 de maio de 2009


PASSARINHOS


Algumas gotas de lágrimas não se seguraram e caíram dentro da vasilha do feijão enquanto os pratos eram servidos com o mesmo cuidado de todos os dias. Os meninos comeram um almoço temperado por uma tristeza.

Ficaram calados.

Passarinhos que são experimentam vôos mais ousados.

Mas suas asinhas são frágeis ainda, são de uso limitado, nem sabem bem o que dizer, o que pensar, como agir.

Eu às vezes também não, mas conheço mais tanto o chão quanto o ar e entre os dois oscilo entre idas e vindas enquanto dou mais espaço pra alegria e para o amor.

O feijão ficou com aquele tempero que chegou a comover. Na certa ajudará os meninos a ficarem mais fortes, a crescer.

Menos calados estavam no lanche da noite, quando percebi umas peninhas caídas aqui e ali pela casa - pequenas plumas despencadas de suas tenras asas, de seus vôos arriscados.

Belos passarinhos.

sexta-feira, 8 de maio de 2009


Trouxe esse texto de 2007, certa de que de lá pra cá temos muitos desentupimentos a celebrar.


DIA DAS MÃES (2007)

 Minha mãe sentiu dores no peito e depois de um tanto inconveniente de burocracias e investigações, ontem desentupiram seu coração. Disseram que ela agora vai se sentir bem melhor e mais bem disposta com o coração desentupido.

Disse-me ela que logo após o procedimento, se sentiu obnubilada. Não é a primeira vez que ouvi essa palavra vinda através dela pro meu conhecimento. Passei a admirar tal palavra com uma vontade quase feroz de empregá-la – “obnubilada”. Pensei num coração desentupido e a cabeça quase delirante entre nuvens, um ser em êxtase!

De ansiosa que fiquei, corri ao dicionário que me informou que “obnubilação” seria “deslumbramento” ou “trevas” (!!!) e tal e tal...; e que “obnubilar” seria “obscurecer ou pôr-se em trevas”. Burro esse dicionário, logo me opus. Pelo menos pude perdoá-lo pela palavra “deslumbramento” – essa sim, caiu como uma luva. Coração desentupido e deslumbramento. As nuvens residem muito acima das sombras, pensei (e fiquei desanuviada).

Mas daí voltei ao fato. Esse desentupimento não seria um processo que merecesse muito mais respeito, e que fosse tratado com um mínimo da poesia que lhe cabe? Por que não há boa música pra se ouvir e cores bonitas pra se ver, fotografias inspiradoras e belos quadros, ar, espaço e carinho ininterrupto nesses lugares que são áridos e sombrios, onde instalam os que se recuperam (e os que se despedem) nos hospitais?

Minha mãe teve o coração desentupido e se sentiu obnubilada e que ela seja liberada do hospital o quanto antes. No domingo próximo é Dia das Mães e eu quero compartilhar com ela e com os meus, seu coração desentupido em casa, com a veneração que merece tal acontecimento.

No domingo que vem comungo com todas as mães. Todas nós com nossos entupimentos cardíacos, com as nossas obnubilações e com os sinônimos, associações e metáforas que lhes cabem. E comungo com os que se entopem e se desentopem e que habitam entre, sob e sobre as nuvens.

Tenhamos um feliz e digno Dia das Mães.

sexta-feira, 17 de abril de 2009


ANIVERSÁRIO

 

O amor estampado em rosas multicoloridas eu recebi. 

Amor maduro em tenros botões.

O desabrochar dessas pequenas exuberâncias inundou minha casa de alegrias renovadas.

Um tanto de outras preciosidades também colorem meus dias, reforçam os motivos pra comemorar.

Observo uns ventos menos favoráveis que se afastam e da distância vejo uma tristeza que acena.

Sou eu e de lá me observo a desejar este lugar.

Uma espécie de pacto me rege agora.

Por isso,

festa.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A FALA E O FALO


No fundo tudo se resume na maneira de se combinar as ínfimas 26 letrinhas do alfabeto, comentou oportunamente o psicanalista, o que causou ótimos efeitos no meu alívio já disposto.

É que os discursos dependem da empáfia pra serem o que são e pra causar os efeitos que causam. Há que se considerar os deleites que nos proporcionam as palavras. Mas também a inutilidade que carregam potencialmente. E muito o poder de destruição.

Estão pessoas a trocar os supostos saberes enfeitando-os de grandeza, a levantar polêmicas, a criticar. Alguns compulsivamente, tanto, que perderam o humor e alguma simplicidade.

Sim, os ditos precisam ser ditos, especialmente se bem falados pra provocar boa escuta. O que sobra e muito, são alguns enfeites muito intelectuais, porque os genuinamente poéticos são bem vindos e melhoradores da vida.

Assim como as imagens que absorvemos com a alma através dos olhos. Ou das sutilezas que só o coração escuta através dos ouvidos. E o tato e as sensações. Penso que todos derivados do amor.

Se tivessem as pessoas humor e boa vontade. Se tivessem menos vaidades e discursos.

Se as palavras não fossem perniciosas e arrogantes.

Ando cansada de certas falas empinadas como falos devoradores.

(que os falos libertados das implicações morais e sociais são adoráveis fontes de prazer)

sábado, 28 de março de 2009


FRASES DOS DIAS

 

O menino se despede da infância experimentando as primeiras insônias e mais algumas curiosidades.

O menino mais novo gosta de andar em volta das coisas para imaginar. Depois diz frases surpreendentes e desenha histórias.

A mulher amadurece com menos insônias.

O homem faz que não e melhora com o tempo.

A cidade, de tão judiada, ganha uns pequenos remédios - tentativa de alguns para atenuar o erro absoluto de muitos. Só que os erros continuam numa multiplicação detestável e acaba que a gente participa deles. Sair da cidade com freqüência nos faz bem mais felizes.

Minha freqüência continua a ter trema.

Descobri que no limite do cansaço mora uma tristeza profunda e pura, apartada de motivos (que a exaustão abre arquivos adormecidos).

Do pequeno pro grande, tudo muito parecido.

A cachorra nos observa e vice-versa ao integrar nosso grupo onde o amor dita as regras 

e a falta delas.

 

sábado, 14 de março de 2009


PEQUENINA SURPRESA

 

Uma joaninha pousou na minha bolsa, com certeza pra me trazer sorte.

Chamei meu pequenino pra ver. Ficou olhando.

Ela vai é ficar com vontade de ser sua namorada, você um menino tão bonito.

Mãe! Como é que eu vou beijar uma boquinha tão pequena?!?

É mesmo, filhinho. Só se você virasse um minúsculo duende. Melhor beijar umas boquinhas maiores e mais adequadas, tudo no seu tempo.

Você me chamou só pra isso?

Só.

Gostei. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009





POSSÍVEL “COMENTÁRIO”

                                     para "TORNO PENSAR XVI", de Walmir José  (clique aqui)

É que o amor arredonda as arestas, cria uma terceira superfície no contato entre os macios contornos, faz intercalarem os suspiros e até os temores.

Dissolvem-se em inutilidades algumas angústias.

Verdadeiros, isso sim, os amantes de fato.

Que ao tornarem possível o prazer maior, organizam o caos, projetam outra ordem.

E se não se perdem nos vacilos e ciladas, diluem as dores em transparências,

talvez mesmo em ilusões, saudades, 

pouco importa.


sábado, 14 de fevereiro de 2009




ESTA NOITE

Pois que a noite guia o silêncio que persegue os meus passos pela casa.

Busco a garrafa de vinho e espio os meninos que dormem em suas caminhas de nuvens. A cachorra é minha sombra e sombra deste silêncio, doce criatura que se enrosca no meu tapetinho de colocar os pés cansados semi adormecidos ou recém acordados.

Uma música linda escolhida de distâncias faz parte do silêncio – que não é em absoluto a ausência de sons, é muito outra coisa - se relaciona eroticamente com a minha noite, com o meu delírio, com a minha casa.

A sala, enfeito com um aroma – bruxaria de cerâmicas e óleos e plantas, tudo pra bem receber. Os panos da cama eu os faço impregnados do meu calor, dos meus cheiros, da minha espera entorpecida.

Tudo é bom.

 (que nem mesmo o que tudo de ruim que me assombra consegue achar espaço algum)