quinta-feira, 12 de novembro de 2009


JANELA

pra minha mãe

A chuva desaguava o azul das hortências quando uma vontade bem pobrinha me levou da cadeira à janela.

O tempo era apressado e inconveniente.

Não cabia nele nem as estampas dos vestidos das mulheres de Klimt, nem cada ponto do bordado que eu faria para o vestido do meu próprio casamento.

Pra consolar minha conformidade imaginei que naquela janela era eu a Luzia de Drummond e que de algum outro tempo alguém secretamente olhava

o meu sobrado.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


O TERCEIRO

Se eu fizesse com que as cores desaguassem sobre o papel com mais freqüência pra que eu pudesse a cada dia inventar uma nova paisagem improvável.

E se nelas diluíssem meus enganos e uma estranheza que me persegue.

É que não sei o que vinha sabendo ao longo dos tempos. Desaprendi algumas vontades e ainda não sei que coisa nova é essa

que me convoca.

domingo, 20 de setembro de 2009


SEGUNDO MOMENTO


O dos dias que passam sem que a gente queira.

Em que os olhos treinam alcances.

Em que estar não deveria consumir tempo.

Dias das cores difíceis de nomear.

Das flores que na certa vão durar mais

que esta desejada demora.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

PRIMEIRO DELÍRIO DE UMA PROVÁVEL SÉRIE

Quero andar num caminho de pedras redondas, com borboletas amarelas a voar suavemente em torno dos meus pés.

Em volta tudo é cinza e bom, nem é preciso ver a distância.

Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.


Tenho muito a cumprir.

Eu queria que me deixassem só pra essas coisas e pro amor.


terça-feira, 25 de agosto de 2009


FIM DA ESTAÇÃO

Uma boneca de papel machê pende na porta do quarto e gira à mercê de alguma brisa. Tem posição dramática, cabelos cor de laranja e um vestido que até podia ser meu.

O menino não sabe o mundo e se arrisca.

Belos são os olhos do menino, às vezes frutas doces, às vezes chamas flamejantes, muitas vezes não sei.

Confio no passar das estações, confio nas boas raízes.

Hoje, ainda do frio, contemplo uma árvore que promete folhas novas para a primavera.

terça-feira, 18 de agosto de 2009


INCOMPARÁVEIS


Rosas de muitas cores.

Picolé de groselha, daquele que vai ficando esbranquiçado no final.

Comida quente e molhada na noite fria.

Manta macia nas pernas pra ver filme em casa.

Beijo na boca e conseqüências.

Meninos fazendo bagunça na cama da gente pela manhã.

Sair da cidade.

Não sair de casa.

Não ter que.


Sonhar e viver um sonho bom.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


OUTRA VISTA

para Rosana e Silvana

Havia a mulher que queria domar peixes.

Como se tentasse evitar a queda da água pelas pedras no curso do rio.

Custou-lhe acreditar que não podia.

Hoje olha com mais calma as montanhas.

Acredita que pode construir, com capricho e aos poucos, uma rotina com mais janelas.

Pelo menos por enquanto.

Cabe tão mais que nem imaginava.

Um pássaro a reconhece.

As flores nas árvores das ruas lhe fazem festa.

A estrada é daqui pra muito, que de tanto, pra sempre.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


UNS DIAS

Na beira do rio ele supôs semear peixes. Era pra ser uma praticidade. Achei mais pra bonito.

Observei como as borboletas se juntam no barro da margem.

Uma outra, azul cintilante, pousou perto de nós na pedra. Ele se remeteu às bandejas e cinzeiros que elas enfeitavam em outros tempos, felizmente em desuso. Achei engraçado porque eu quase nem me lembrava.

Aqueles poucos dias se passaram assim, com essas ocorrências além de outros afazeres prazerosos.

Se fossem muitos mais os dias, era melhor ainda.

segunda-feira, 6 de julho de 2009


PRA COMEÇAR A SEMANA


Encontrar no tumulto, a brecha.

No sufoco, o tempo.

Receber o agrado com demora.


Descobrir no caos o que causa.

Do afeto, ter cuidado.

Descaber de motivos.

Desobedecer ao previsto.

Por nenhuma dor ser dominado.


Poder inverter o esperado.


O amor aprendido,

esparramar todos os dias,

pra todo lado.

terça-feira, 23 de junho de 2009



BORDADO


Um ponto mais e esqueço do trânsito e do motorista estúpido.

Mudo a cor do tecido enquanto nem me lembro dos prédios enormes que se erguem no meu percurso diário, agressivas construções a mudar a paisagem e o fluxo, antes de relativa tranqüilidade.

A linha será vermelha agora, que nem me lembro dos diálogos interrompidos, das palavras cruéis, dos silêncios omissos.

E no centro se faz uma flor e quase nem penso.

E no outro, um botão.

As mãos brincam neste bordado quando quase nem sei que o tempo não me pertence.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


O OUTRO TEMPO

 

Por trás do tempo passa um outro tempo que nem sempre se percebe (tem gente capaz de jurar que não existe).

Nesse tempo pode-se olhar a esmo e com demora, tempo em que cabe.

Não há pressa e nem prazos e é só querer que tudo se estica.

Pode-se não querer nada e só esperar o tanto do desejo.

Os dias são repletos ou parados, mas sempre grandes, num tempo que quase não se vê passar.

Por trás do tempo é que se faz também o sonho.

É desse tempo que saíram as cores da tarde.

Os desenhos das montanhas.

Uma chuva na varanda.

Esse seu cheiro que eu sempre soube.

 

terça-feira, 26 de maio de 2009


PASSARINHOS


Algumas gotas de lágrimas não se seguraram e caíram dentro da vasilha do feijão enquanto os pratos eram servidos com o mesmo cuidado de todos os dias. Os meninos comeram um almoço temperado por uma tristeza.

Ficaram calados.

Passarinhos que são experimentam vôos mais ousados.

Mas suas asinhas são frágeis ainda, são de uso limitado, nem sabem bem o que dizer, o que pensar, como agir.

Eu às vezes também não, mas conheço mais tanto o chão quanto o ar e entre os dois oscilo entre idas e vindas enquanto dou mais espaço pra alegria e para o amor.

O feijão ficou com aquele tempero que chegou a comover. Na certa ajudará os meninos a ficarem mais fortes, a crescer.

Menos calados estavam no lanche da noite, quando percebi umas peninhas caídas aqui e ali pela casa - pequenas plumas despencadas de suas tenras asas, de seus vôos arriscados.

Belos passarinhos.

sexta-feira, 8 de maio de 2009


Trouxe esse texto de 2007, certa de que de lá pra cá temos muitos desentupimentos a celebrar.


DIA DAS MÃES (2007)

 Minha mãe sentiu dores no peito e depois de um tanto inconveniente de burocracias e investigações, ontem desentupiram seu coração. Disseram que ela agora vai se sentir bem melhor e mais bem disposta com o coração desentupido.

Disse-me ela que logo após o procedimento, se sentiu obnubilada. Não é a primeira vez que ouvi essa palavra vinda através dela pro meu conhecimento. Passei a admirar tal palavra com uma vontade quase feroz de empregá-la – “obnubilada”. Pensei num coração desentupido e a cabeça quase delirante entre nuvens, um ser em êxtase!

De ansiosa que fiquei, corri ao dicionário que me informou que “obnubilação” seria “deslumbramento” ou “trevas” (!!!) e tal e tal...; e que “obnubilar” seria “obscurecer ou pôr-se em trevas”. Burro esse dicionário, logo me opus. Pelo menos pude perdoá-lo pela palavra “deslumbramento” – essa sim, caiu como uma luva. Coração desentupido e deslumbramento. As nuvens residem muito acima das sombras, pensei (e fiquei desanuviada).

Mas daí voltei ao fato. Esse desentupimento não seria um processo que merecesse muito mais respeito, e que fosse tratado com um mínimo da poesia que lhe cabe? Por que não há boa música pra se ouvir e cores bonitas pra se ver, fotografias inspiradoras e belos quadros, ar, espaço e carinho ininterrupto nesses lugares que são áridos e sombrios, onde instalam os que se recuperam (e os que se despedem) nos hospitais?

Minha mãe teve o coração desentupido e se sentiu obnubilada e que ela seja liberada do hospital o quanto antes. No domingo próximo é Dia das Mães e eu quero compartilhar com ela e com os meus, seu coração desentupido em casa, com a veneração que merece tal acontecimento.

No domingo que vem comungo com todas as mães. Todas nós com nossos entupimentos cardíacos, com as nossas obnubilações e com os sinônimos, associações e metáforas que lhes cabem. E comungo com os que se entopem e se desentopem e que habitam entre, sob e sobre as nuvens.

Tenhamos um feliz e digno Dia das Mães.

sexta-feira, 17 de abril de 2009


ANIVERSÁRIO

 

O amor estampado em rosas multicoloridas eu recebi. 

Amor maduro em tenros botões.

O desabrochar dessas pequenas exuberâncias inundou minha casa de alegrias renovadas.

Um tanto de outras preciosidades também colorem meus dias, reforçam os motivos pra comemorar.

Observo uns ventos menos favoráveis que se afastam e da distância vejo uma tristeza que acena.

Sou eu e de lá me observo a desejar este lugar.

Uma espécie de pacto me rege agora.

Por isso,

festa.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A FALA E O FALO


No fundo tudo se resume na maneira de se combinar as ínfimas 26 letrinhas do alfabeto, comentou oportunamente o psicanalista, o que causou ótimos efeitos no meu alívio já disposto.

É que os discursos dependem da empáfia pra serem o que são e pra causar os efeitos que causam. Há que se considerar os deleites que nos proporcionam as palavras. Mas também a inutilidade que carregam potencialmente. E muito o poder de destruição.

Estão pessoas a trocar os supostos saberes enfeitando-os de grandeza, a levantar polêmicas, a criticar. Alguns compulsivamente, tanto, que perderam o humor e alguma simplicidade.

Sim, os ditos precisam ser ditos, especialmente se bem falados pra provocar boa escuta. O que sobra e muito, são alguns enfeites muito intelectuais, porque os genuinamente poéticos são bem vindos e melhoradores da vida.

Assim como as imagens que absorvemos com a alma através dos olhos. Ou das sutilezas que só o coração escuta através dos ouvidos. E o tato e as sensações. Penso que todos derivados do amor.

Se tivessem as pessoas humor e boa vontade. Se tivessem menos vaidades e discursos.

Se as palavras não fossem perniciosas e arrogantes.

Ando cansada de certas falas empinadas como falos devoradores.

(que os falos libertados das implicações morais e sociais são adoráveis fontes de prazer)

sábado, 28 de março de 2009


FRASES DOS DIAS

 

O menino se despede da infância experimentando as primeiras insônias e mais algumas curiosidades.

O menino mais novo gosta de andar em volta das coisas para imaginar. Depois diz frases surpreendentes e desenha histórias.

A mulher amadurece com menos insônias.

O homem faz que não e melhora com o tempo.

A cidade, de tão judiada, ganha uns pequenos remédios - tentativa de alguns para atenuar o erro absoluto de muitos. Só que os erros continuam numa multiplicação detestável e acaba que a gente participa deles. Sair da cidade com freqüência nos faz bem mais felizes.

Minha freqüência continua a ter trema.

Descobri que no limite do cansaço mora uma tristeza profunda e pura, apartada de motivos (que a exaustão abre arquivos adormecidos).

Do pequeno pro grande, tudo muito parecido.

A cachorra nos observa e vice-versa ao integrar nosso grupo onde o amor dita as regras 

e a falta delas.

 

sábado, 14 de março de 2009


PEQUENINA SURPRESA

 

Uma joaninha pousou na minha bolsa, com certeza pra me trazer sorte.

Chamei meu pequenino pra ver. Ficou olhando.

Ela vai é ficar com vontade de ser sua namorada, você um menino tão bonito.

Mãe! Como é que eu vou beijar uma boquinha tão pequena?!?

É mesmo, filhinho. Só se você virasse um minúsculo duende. Melhor beijar umas boquinhas maiores e mais adequadas, tudo no seu tempo.

Você me chamou só pra isso?

Só.

Gostei. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009





POSSÍVEL “COMENTÁRIO”

                                     para "TORNO PENSAR XVI", de Walmir José  (clique aqui)

É que o amor arredonda as arestas, cria uma terceira superfície no contato entre os macios contornos, faz intercalarem os suspiros e até os temores.

Dissolvem-se em inutilidades algumas angústias.

Verdadeiros, isso sim, os amantes de fato.

Que ao tornarem possível o prazer maior, organizam o caos, projetam outra ordem.

E se não se perdem nos vacilos e ciladas, diluem as dores em transparências,

talvez mesmo em ilusões, saudades, 

pouco importa.


sábado, 14 de fevereiro de 2009




ESTA NOITE

Pois que a noite guia o silêncio que persegue os meus passos pela casa.

Busco a garrafa de vinho e espio os meninos que dormem em suas caminhas de nuvens. A cachorra é minha sombra e sombra deste silêncio, doce criatura que se enrosca no meu tapetinho de colocar os pés cansados semi adormecidos ou recém acordados.

Uma música linda escolhida de distâncias faz parte do silêncio – que não é em absoluto a ausência de sons, é muito outra coisa - se relaciona eroticamente com a minha noite, com o meu delírio, com a minha casa.

A sala, enfeito com um aroma – bruxaria de cerâmicas e óleos e plantas, tudo pra bem receber. Os panos da cama eu os faço impregnados do meu calor, dos meus cheiros, da minha espera entorpecida.

Tudo é bom.

 (que nem mesmo o que tudo de ruim que me assombra consegue achar espaço algum) 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009



DE VOLTA

De volta a esta cidade confusa e a outras semelhantes confusões.

De um lado pro outro se dá ao atravessar nuvens, a paisagem das montanhas assim me sugeriu, só para um devaneio a enfeitar a realidade.

Olho de frente alguns fracos que destilam venenos, outros que dissimulam, alguns que traem ou enganam sem cerimônia.

Me impressionam a carência de compromisso e a desconsideração.

Um presidente bonito melhora muito a aparência das revistas e dos jornais. A gente acha até que o mundo vai melhorar.

Beleza é sempre bem vinda. Olhos atentos pra não deixar passar.

Os cachorros são sinceros e muito afetivos. Também algumas pessoas.

Meus amores são intensos – plena alegria que emerge num quase caos.

Ando um pouco assustada,  

mas feliz.

sábado, 17 de janeiro de 2009


FÉRIAS

 

Lua cheia, eu na rede da varanda, um filho se aninha no meu colo e me oferece seus olhinhos doces bem a contemplar os meus sem cerimônia alguma até deixá-los fechar rendido pelo sono.

O outro filho sentado na cadeira bem próxima, enquanto lê, cuida de deixar seu pé bem perto do meu pra de vez em quando provocar uns carinhos.

No meu fone de ouvido uma orquestra incrível toca peças de Bach pra eu ouvir porque posso escolher assim.

A brisa que nos visita vem do mar, desta vez não das montanhas.

Penso que tenho um pedaço do céu, que isso é ser feliz.

Uma saudade se mete a ocupar um espaço enorme e me faz lembrar que mais ainda.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009



BOA PROSA

A janela emoldura as árvores enfileiradas da praça. Prefiro as outras sem molduras, sem praça. Mas está bom assim também.

O avô dos meus filhos (que de titulação ser meu pai importa mais ainda) conversava com o mais novinho, e na minha passagem por perto ouvi uma frase apenas daquela prosa: 

“o chuveiro é uma chuva resumida”.

Pra mim bastou muito.   

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


NOITE FELIZ

 

Uma paisagem que não existe.

Um cheiro de merendeira de couro e a cor do guardanapo de algodão que embrulhou os biscoitos (só pra trazer a infância de algum lugar que é longe).

A árvore de Natal piscando na sala vazia, até bem tarde.

Férias com previsão de fim, tarefas e impedimentos demais pra atrapalhar o gozo.

A rabanada que minha avó fazia.

A torta de nozes controlada pra que a silhueta seja preservada, pelo menos um pouco.

Família aos pedaços, amor em pedaços, pedaços de papéis de presentes pelo chão.

Os brinquedos que não combinam com as crianças. 

Os adultos que não se combinam.

A roupa escolhida, os cartões que vão pro lixo, a comida que vai sobrar, uma implicância ou outra com pequenas coisas, alguém que vai chorar.

Um lugar pra onde ir, reservado, onde é possível viver um dia feliz. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2008


ESPERA

 

A menina cavou com suas próprias unhas um buraco. Lá dentro depositou um desejo que já começava cheirar a mofo. Fez que esqueceu.

O menino tirou um brinquedo velho muito novo do armário e fez sua tarde outra.

A chuva continuou a molhar algumas claridades.

O vento disse: espera, agora ainda não.

No vaso uma flor ameaça abrir a qualquer hora.

Na certa, uma outra coisa virá nesse espaço que parece que não há.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

sábado, 15 de novembro de 2008


BOA NOITE

 

Eu te amo mais que...

 

Mais que o quê, filhinho?

 

Deixa eu pensar em alguma coisa bem boa...huumm...

 

Uma coisa bem boa?

 

É...já sei! Eu te amo mais que saber falar! Bom, se eu não soubesse falar eu não ia poder dizer que eu te amo, mas eu ia amar assim mesmo.

 

Saber falar é muito, meu anjo. Que você saiba sempre falar o que quiser e que for importante pra você. E que tenha sempre alguém pra te escutar.

 

(meus olhos ficaram molhados e de uma gota pequena dessa lágrima se fez uma fada que derramou uma chuva de minúsculas estrelas por todo o quarto naquela noite linda) 

domingo, 2 de novembro de 2008



GUARDADOS

 

Na caixinha de esquecimentos botões já tiveram roupa.

A renda teve um certo vestido.

Cada pequeno objeto em sua estampa de inércia se finge interrompido.

A flor seca ainda é habitada da lembrança de umidade.

De cheiro de terra, saudade.

O bilhete amassado, de uma que fui de mim,

é ainda impregnado.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

“Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos.” (José Saramago)

 

INDIFERENÇAS IMPOSSÍVEIS

 

Porque andar sobre as montanhas e olhar pra todos os lados me dignifica mais que grande parte das funções que tenho que cumprir.

Tudo parece menor e menos útil que a vida que brota sem esforços nas infinitas cores que a natureza pinta, indiferente à presença de olhares. Não há silêncio e sim um universo preenchido de delicadezas e exageros que dispensam argumentos e justificativas.

São coisas assim que geram sentido, também algum poema do Neruda, o canto apaixonado do Diego Cigala, muitas outras que cada um é que sabe e também os preciosos dias que podem (e deveriam todos) servir ao exercício do amor.  

Se não é o amor o próprio sentido que alimenta essas percepções e que se conquista com o tempo e com a sabedoria que nos fazem distintos.

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2008


PRIMAVERA

 

Tomada a vida com mais apreço e doçura, dá-lhe exuberância, pois que assim é que é pra ser a primavera - na fartura, na sobra e não na falta.

Em tempos de surpreendências atmosféricas e rebeliões da Dona Natureza, ainda mais nesses hemisférios de cá, estação é luxo de quem sabe delas. No mais é chuva, frio ou calor.

De chuva, tem tempestade de todo tipo, ainda há pouco me pegou umazinha brava, mas de fácil solução. As das águas, não fossem as destruições e as precariedades dos abrigos, seriam puro espetáculo de beleza pra se admirar.

De frio, aprumo o esqueleto, providencio mais agasalho e faço bom uso da indiferença se o frio for metáfora. Se for de fato, aproveito pra aninhar mais gostoso.

De calor a gente se ajeita, ventila, refresca e aproveita, que é mais dele mesmo que o amor se alimenta.

O que aborrece é besteira, desperdício, ignorância, omissão e secura.

Que pra vida ficar ruim basta deixar que seja.

terça-feira, 16 de setembro de 2008


DELEITE

 

Na correria do vai e vem dos compromissos sem fim, melhor é desfrutar nos percursos, e sem economia, da exuberância e fartura dos ipês cor-de-rosa (cor que da rosa ainda rouba o nome nessa vez de ipês).

A cidade de escassa beleza surpreende enfeitada, encantada, premiada. De brinde, umas outras árvores de nome que não sei, em menor volume, exibem flores miúdas de um roxo azulado, em que tudo parece composto num arranjo premeditado.

Pra não bastar, a noite traz uma bruma que cobre de transparências a lua muito cheia, fazendo parecer que alguém pintou o céu e deixou borrar um pouco, por puro deleite.

Sorte a minha que tenho andado com os olhos abertos.

E o coração.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008


CONVERSA DE AMIGA

                                                                 pra Pricila

A princípio, tudo bem.

Assim sem muito conflito e nem muito entusiasmo em algumas funções a cumprir.

E aí a amiga me disse estar cansada de ser corajosa. Concordei com ênfase – pro diabo com isso! A gente passa a cumprir esse papel e tem que bancar o tipo.

Ela percebeu que eu ando desesperada praticamente bem menos. Um pouco vai que é da natureza da pessoa, mas bem melhor agora, acho que por circunstância e análise – exercício de vigília pra num cair em buraco muito fundo.

Tem também remédio que dá pra usar sem maiores problemas.

As flores dos ipês amarelos caem mesmo e depois vêm as outras de outras cores, de outros ipês e os amarelos voltam mais na frente. O verde seca e depois fica verde outra vez e a gente, mais ou menos igual.

Tem hora, que quando assim desencontrada, vai procurar alguma coisa que nem sempre é pessoa.

Prudente e adequado é medir as importâncias. Eu, no caso, arredei umas coisas pro amor caber grande e generoso. Da minha parte, no agora, tá feito.

 

sexta-feira, 29 de agosto de 2008


FESTA

Do vôo da borboleta capturei, a derramar do limite das asas, uma chuva de cores.
Pintei meu dia e minha alegria com pincéis dançarinos.
Da confiança ensaiei os rabiscos de uma dança.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto
os últimos dias de agosto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


COMPENSAÇÕES

Desespero é coisa que atropela o tempo e as ações com sua fúria inútil. Mas nem todos são dados a ele.
Por isso ela invejou o personagem de um livro, desespero não o visitava e assim ele cumpria os dias com relativo controle.
Confortou-lhe, entretanto, o pensamento de que o tempo e certa dedicação eram ingredientes fundamentais que a fariam envelhecer pra melhor. E assim o fazia. Da aparência cuidava com minúcias e sem exageros. Mas nas profundidades a idade na certa vinha como um prêmio de muito já ter vivido. O coração lhe saía pela boca com menor freqüência e algumas conversas e situações podiam se dar sem grandes esforços de convencimentos. Dessa maneira procurava acreditar que afastava de si a possibilidade do maldito desespero.
Mesmo assim sabia, por experiência e estrada, que algumas sensações e percepções aparentadas por semelhante intensidade tornavam a vida indiscutivelmente mais interessante. É como um preço que se paga. Não fosse ela acometida eventualmente pelo inútil desespero, na certa também não experimentaria outras intensidades de melhor procedência.
E o amor.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008


PEQUENAS OBSERVAÇÕES

- Foi o meu filho que me mostrou o primeiro ipê amarelo florido desta temporada. Muito bom observar e compartilhar essas importâncias.
- Com o analista compartilhei alguns espantos e novamente a constatação de que afinal somos todos um tanto perturbados. Melhor quando a gente cuida das perturbações da gente porque assim vivemos menos apertados e perturbamos menos os outros.
- Meu outro filho menorzinho disse: “ainda bem que a professora tem bom senso e deixa a gente pedir pra mudar a musiquinha que ela canta na hora do lanche”. Feliz fico eu por ele já se interessar pelo bom senso e saber empregá-lo tão bem.
- O meu jardim está florido, melhor esquecer os enganos. Quero melhorar meus próximos (muitos) anos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008



PRA LONGE AGORA

Numa escrita de relíquias, constrói-se um diário de poucos e preciosos dias. O vento lá fora sopra um desacreditamento pra longe agora.
Os anjos comparecem com asas de festa, cintilantes, de cores desaguadas.
Vejo como dançam alegres e loucos, enquanto os segredos dos percursos são guardados.
Vive-se muito no enquanto destes dias anunciadores de muitas primaveras
(e ainda faz inverno por aqui!).

quinta-feira, 31 de julho de 2008


TARDE DE INVERNO

pra Beth

Algumas mulheres preocupam-se com os casaquinhos dos filhos, se estão suficientes, e comentam como que as bochechas dos pequenos ficam rosadas com esse tempo.
Pensam também na noite que está por vir, que é preciso distraírem-se porque o companheiro não se sabe e tal.
Olham a paisagem bonita enquanto desejam que fossem menos intensas e complicadas.
Depois se confortam pensando que no fundo o que querem é até simplesinho se for pensar bem mesmo.
Vão então caminhar pela tarde de inverno a passos rápidos pra exercitarem as pernas que já não são as mesmas de uns anos atrás e no percurso lembram-se que na última noite não passaram o creme anti-idade e que o vento nessa época.
Enquanto isso alguns homens correm, não pelas pernas propriamente, mais pelo colesterol.
E preocupam-se menos e com outras coisas.

sábado, 26 de julho de 2008


PRESSENTIMENTO

Na claridade por detrás do morro, um pressentimento de lua.
Ela surgiu minguante, mas luminosa, a ofuscar as mais belas estrelas.
Vai que nem faço uma comparação, vai que nem percebo, enquanto tomo meu vinho e distraio uma saudade.

terça-feira, 15 de julho de 2008


CHUVA MAIS COMPRIDA

Depois de eu ter chovido a chuva mais comprida me enfeitei de me achar bela.
Assim prossegui, meus pés nus brincando na relva molhada da minha chuva.
Até desaforei a dançar, até fiquei bem feliz.
Eu, meus pés e minha belezura.
O sol veio assistir e me ofertar um arco-íris que se formava pra cenário
com os últimos pingos
da minha chuva mais comprida.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


PROCEDIMENTO

Ela vigiava instantes, preocupava-se em reconhecê-los e a eles atribuir cores.
Procedimento de espichar o dia e gerar sentido.
Quando o sentido vinha treinava esquecimentos.
Reservava alguma essência que virava memória que servia pra consultas, servia pra reconhecer outros instantes.
Alguns agarravam-se nela e colavam, instantes insistentes, dor, alegria cega, ilusão ou utopia.
Interrompiam sua vigília, prejudicavam seu talento de atribuir cores.
Às vezes viravam doença e precisava de ajuda - oração, mandinga, vela acesa, incenso, análise, conversa, benzedura, receita, terapia.
E mais conversa à beira do fogão, à beira da estrada, à beira do abismo ou do nada.
Ela então espreitava (já pressentia).
Vigiava
e outro instante surgia.

quinta-feira, 3 de julho de 2008


UM SONHO

Me vesti de árvore, desenhei um nome no chão com as folhas secas e deixei que o vento soprasse.
Como segunda providência convidei uma mulher e um homem apaixonados pra que se amassem na minha casa e impregnassem todos os cômodos.
Como de árvore eram só as minhas vestes, saí a caminhar desenraizada.
Com o vento algumas folhas do nome que escrevi me alcançaram, agarraram-se em meus cabelos e segui a percorrer o inverno.
Entorpecida,
obnubilada
e livre.

segunda-feira, 30 de junho de 2008


DE PREFERÊNCIA

Por vias diversas desfilam histórias e sentidos intercalados, sobrepostos, desandados.
Sonho que virou pesadelo.
Pesadelo que expurgou uma miséria.
Mergulho no espaço com meu corpo dançante e dolorido.
Um ou outro desgosto agarrado nas articulações vai se diluindo, virando movimento sem interpretações racionais – ainda bem.
Assim também acontece nas linhas dos desenhos, no semi-acaso das cores, nos dedos enlouquecidos sobre teclas das letras ou das notas, nos momentos capturados.
Há que se viver por essas vias e também beber bons vinhos e amar.
De preferência muito.

UM DIA

Não se sabia de outro domingo, de outro presente que não aquele atordoado, insano.
O dia era esse e não outro.
Nenhum café comprido, nada pra jogar fora na conversa, só a própria, inteira, dispensável porque estúpida.
Estúpida me reconheci naquele palavrório sem sentido, desprovido de construção ou de delícias inúteis.
Vai que uma carta seria uma solução poética, carta de símbolos sem palavras, carta de imagens desconectadas, sugestões abstratas, uma possível despedida sem adeus.
Fazia frio e sono e cansaço e medo. Fazia abandono e inverno.
Tomei o presente nas minhas mãos, não o subjetivo, o da caixa. Olhei sua beleza e suas
possibilidades repletas de sentido.
Mas o que se passava era débil e estéril, uma manifestação de passado e estagnação.
Emprestei ao dia algumas cores, as de outra caixa, de outro passado. Cores que se refaziam presentes.
Algo então foi escrito, que nem eu mesma conseguia decifrar. Colocado no papel pra que virasse outra coisa. E virou mesmo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008


PARA UM LUGAR

Há um lugar onde as noites são calmas e as manhãs possíveis.
Tudo pode ser dito sem maiores cálculos, problemas menos ainda.
Precauções são pouquíssimas e quase desnecessárias.
Domingos são bem vindos e segundas igualmente.
Para lá, os que caminham com muita bagagem têm que se desfazer de alguma parte dela.
Alguns, vão indo com tão pouca que no caminho precisam adquirir algumas coisas, umas básicas, outras, desnecessidades adoráveis.
Alguns vão com passos tristes, talvez porque queriam levar alguém que não quis ir.
Outros, com passos determinados e animados.
Uns sós, outros com companhia.
Pra ir é preciso querer.
Não importa a bagagem, nem o motivo, nem o modo com que se caminha.
É comum partir pra lá e voltar ou perder-se no caminho.
Pior é quem esquece pra onde estava indo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008


A MULHER LOUCA

A mulher louca pensou que não era mais.
Gastou uma pose nova e um discurso em vão.
Fez convocação de anjos e aguardou.
Ao achar que não era mais, deparou-se consigo e com sua miséria.
Habitava ela, a louca, adormecida no cerne da mulher.
Assustou-se, afastou-se, olhou e se viu da distância.
A distância era boa, lúcida e confortável.
Guardou a louca e aguardou.
Passaram-se os dias
a limpo.
INSENSATEZ (PROJETO BRASIL)


http://br.youtube.com/watch?v=yFp43nLyfJ8

terça-feira, 10 de junho de 2008


CONVOCAÇÃO

Há um lugar onde habitam os anjos, e lá ensaiam tarefas de anjos.
E aguardam.
Aguardam quem os convoque - quem ou o que. Às vezes algo se esboça e isso é suficiente para que eles se manifestem.
Algo se esboça e se arrisca. Pronto, vêm então os anjos que se identificam com a questão em questão. Os anjos são assim, setorizam suas questões conforme os ventos ou a disposição das nuvens. E daí se prestam a essa ou àquela função.
Como preparação, cantam, dançam e enfeitam suas vestes. Isso, os que delas fazem uso, os que não, ajeitam cabelos e asas e esfregam gotas de chuva que fazem a pele de anjo mais tenra e brilhante.
Alguns casos requerem reunião de anjos. Eles então trazem fitas de cetim de todas as cores e trançam uma trama única onde tudo o que diz respeito àquele caso específico é amarrado. Daí, fazem um tecido que quase sempre é muito comprido e complicado. E esse tecido é percorrido por cada anjo que analisa sua composição, as passagens das cores, as mudanças dos pontos. Com isso decidem se o tecido é pra cobrir, pra encobrir, se é pra aquecer, enfeitar, ou se é pra ser levado definitivamente para a exposição celeste de casos insolucionáveis.
Pois então, que venham os anjos.

domingo, 25 de maio de 2008


DIMENSÕES

De que tamanho é o seu braço? Cabe em que abraço?
A lua cheia não cabe no meu desassossego.
A vida mede um percurso e acaba.
A ilusão é maior que a vida.
A barata que atravessa a sala é maior que o home theater instalado por lá.
Esta noite é muito maior que a passada.
A terra é uma poeira ínfima no universo.
A poeira no meu piano é gigantesca.
A do chão da sua casa aumenta muito quando tem testemunha.
O descuido com o outro faz alguém infinitamente menor e maior para aquele outro.
Menor pelo valor, maior pelo mesmo valor.
Um desprezo importante é invasor das dimensões.
Há uma joaninha que ao pousar no meu braço faz qualquer desprezo inexistente (arquivo temporariamente fechado).
As montanhas têm sido do meu tamanho quando deito-me sobre elas com meus olhos cansados, e meu corpo se entrega aos contornos que elas me oferecem e assim fica imenso e esparramado.
O universo cabe na palavra que o denomina e nenhuma nova descoberta sobre ele faz a palavra mudar de tamanho.
Eu achava que dizer “eu te amo” automaticamente causava grandes medidas no tempo. Descobri que pode ser bem pequeno e passageiro, depende do tamanho do momento de quem diz.
Mesmo assim o amor tem poder de dimensões incalculáveis, também o perdão, a compaixão e a vontade.
Tem amor que é maior que tudo que teve tamanho inadequado na sua trajetória, maior que a loucura (sabe-se lá quantos tamanhos tem a loucura?).
Justiça é insistentemente bem pequena.
É frágil, a pobrezinha.
É quase só uma idéia.
Uma idéia é maior
ou menor
que outra.

domingo, 18 de maio de 2008


SOBRE AGRADOS

O homem passou e deu bom dia.
O dia foi o mesmo, mas o homem melhorou mais um pouco porque disse bom dia. Quem ouviu, melhorou também um pouco, pois que ouviu.

Alguém quis agradar alguém por gosto.
O agradado fez projeções, interpretações e premunições equivocadas e piorou um pouco.
Agrados deveriam ser ao menos agradecidos. Desprezados são muitas vezes por ignorância das suas origens.
Gozado, que tem agradados que se sentem ameaçados, mudaram de rumo e não conseguem ver que o agrado foi genuinamente do coração e que o agradante não quer além de notificação de recebimento do agrado, é simples.

Acolher um agrado é ciência do coração que sabe guardar pra sempre um presente e o amor, nem que a circunstância faça com que fique só na memória, mas está lá (pra sempre é lindo).

Relacionar não é simples e faz história.
História tem peso e conseqüência, difícil administrar o que não se apaga.

Não há grande problema em esquecer o dia do aniversário. Problema é esquecer o aniversariante.

Escrevi há tempos que certos gestos de carinho não deveriam precisar de folheto explicativo ou manual de instruções.
A verdade é que parece que precisam e por isso perdem seu frescor, sua espontaneidade.
Sem terem sido feitos pra isso, viram peça de jogo, chatice, é triste de reconhecer.

A vida é muito curta, a terra é bem próxima de nada e as vaidades são infinitamente menos que ínfima poeira.

Sofrimento é grande pra tão pouco.

Pouco é menos pra tanto descuido.

quarta-feira, 14 de maio de 2008


O CAVALO NO BARRANCO

Eu vi um cavalo no barranco.
Eu vi um cavalo no barranco em plena cidade, de um entroncamento com muitos carros passando.
Eu vi um cavalo no barranco e me surpreendi com sua altivez e importância no meio do barranco em plena cidade, com carros passando.
Eu vi o cavalo no barranco quando voltava do supermercado apressada pro trabalho.
Vi o cavalo branco no barranco quando pensava que eu estava menos triste no meu trajeto.
O cavalo branco no barranco estava lá quando minha pressa me incomodava menos, por isso o achei lá e importante.
Vi o cavalo e me surpreendi com ele e comigo, ele importante, e também eu, passando por lá menos indignada, com uma tristeza menorzinha.
Achei tão lindo o cavalo no barranco, ele branco, o barranco verde e os carros passando inclusive o meu.
Eu e o cavalo branco no barranco estávamos muito importantes no momento em que parei no sinal e fiquei olhando pra ele o suficiente pra dele guardar uma imagem.
O trajeto melhorou muito com o cavalo no barranco e eu a passar por ele.
Eu e o cavalo branco melhoramos muito aquele momento.

A MULHER, AS NUVENS E O AMIGO

Havia uma mulher.
Havia nuvens.
A mulher se viu nua, vestida de nuvens.
Quando escuras, a mulher não enxergava e desagradava muito não ver.
Quando claras, pareciam-lhe vestido de noiva ou de santa, ou de fada ou de pura.
Noiva nunca tinha sido, santa ainda menos, fada se achava e pura, com tudo que nela cabia, era, ela pura.
Envolta em nuvens caminhava a mulher, a disfarçar sua nudez e a soprar inutilmente as nuvens que, de resposta, lhe confundiam, armavam tempestades, volumes, texturas.
Ia a mulher com suas nuvens e um amigo perguntou: “E as nuvens?”
Respondeu a mulher: “Olha, consegue vê-las? E a mim? Será que se elas se forem estarei nua? É que quero ser exatamente o que sou e caber onde me couber e dar menos satisfações. Meu amigo, sopremos nossas nuvens e que nossas palavras nos salvem.” E agradeceu ao amigo, a mulher com as nuvens.

quarta-feira, 7 de maio de 2008


O PLANTIO DO AMOR

Nossa, quanta interpretação! Tudo bem, a conversa tem sido de fato um pouco séria, mas nada de extremos.
Vamos combinar que plantaremos o amor, em fartura! Muitas mudas não vão vingar, algumas não irão muito pra frente, mas teremos um campo cultivado e florido de amor!
Tenho mudas de excelente qualidade, conheço quem tem bons adubos, chamaremos também os que dispõem de águas cristalinas, conheço muitas fontes.
Faremos a festa do plantio, ando mesmo querendo festa, perdi umas celebrações por aí por pura circunstância. Vamos dançar e beber bons vinhos, comer boas comidas, saborear as especiarias mais raras e preciosas, que merecemos e temos paladares bem dispostos.
E resguardaremos com doçura nossas dignidades ao exercermos esse amor, ao colhermos suas saborosas frutas.
E as flores, que brotem com outras cores diferentes das que esperávamos pra que nos surpreendam, e que as formas, também sejam inusitadas.
Ofereço um belo buquê pra você, que se dispôs a vir e ler, com certeza você faz parte desta festa!

terça-feira, 6 de maio de 2008


UMA RESPOSTA

Estranho agora esse dizer de flores e fertilidades.
Hoje, como exercício, treino alguns bons motivos – as montanhas, as chuvas, a fartura das cores, dos sons e esquecimentos, que tenho dificuldade demasiada com misérias e um certo exagero insiste em mim a me tirar o ar. Abundante é mesmo a vida na plenitude da planta que não se sabe, até nos terrenos menos férteis algo se presta à primavera.
Nos filhos cabe tudo (me comovem absolutamente), sobretudo o amor do qual não desisto e sabendo das minhas falhas insisto em reafirmar, com todas as suas derivações possíveis – respeito, consideração, alegria, justiça, compaixão entre muitas outras.
De quantas vezes me vi confundida já não me lembro, sigo a limpar os dias dos resquícios das águas que passaram. Decerto deságuam no mar e na abundância se perdem ou deixam de ser, tanto melhor.
Curioso que de lembrança tenho ainda a imagem de um oceano inteiro no molhado dos seus olhos – nem pretendo me esquecer, pois que neles habitavam sim todas as águas que me assustaram acho que pra sempre.
Não há nenhum papel em branco, levianas as esperanças românticas num mundo de pessoas adoecidas e complexas – vaidade, orgulho, crueldade, mesquinharia, indiferença, conformismo. Afinal o que há de novo nas vitrines e nos jornais? Em grande ou em pequena escala, reflexos de um ser talvez mal planejado, talvez mal evoluído, talvez vítima de um acaso não muito justo nem feliz. Ser humano, desumano, que diferença faz? Onde está o mérito?
Há um outro sentimento sim, que ainda não conheço bem, que definitivamente não é rancor. Por isso a náusea, o desconforto e um certo sarcasmo. Por isso não esperar com entusiasmo nem a sorte, nem mais o ano-novo, nem Godot, nem você.
No momento viver é uma tarefa com muitas responsabilidades e a alegria é, quando se faz possível, o exercício de preciosos prazeres (pra mim o amor, a natureza e as artes são fontes reais), conseqüência de quem também se contaminou pela primavera e que, provavelmente também a ela se prestará outras vezes.

domingo, 4 de maio de 2008


EM BOA HORA

Assim que achou suficiente, levantou-se e foi-se embora.
Em boa hora, será? Difícil medida essa – o suficiente.
Ir embora foi muitas vezes – algumas muito depois do suficiente, algumas bem antes.
Suficiente é pura suposição, pois que boa hora pra ir é ciência de minúcias, que em poucos momentos presenteia poucas pessoas.
Glória e alívio quando é da gente o privilégio, que em grande parte, o que se passa é susto e desapontamento.
“Embora” insiste em ser, incontáveis vezes, não em boa hora.
E aí é desencontro, despedida, e mesmo abandono.

sexta-feira, 2 de maio de 2008


MAIS UM TEXTO

Parto pra uma viagem,
miragem de um outro lado,
dado que esgotada uma imensa batalha
falha de enganosos pressentimentos,
fomento de insistência
da demência de um sonho.
Proponho então virar a esquina,
menina extraviada numa mulher
sequer esquecida, que o coração não tem memória
- história repetida,
descabida e inevitável.
Adorável a besta vida
atribuída a ilusão à realidade
em que há de se viver que é preciso e precioso.
Gostoso o vento
e lamento ir sozinha
minha curva é sinuosa
gostosa a chuva, mas não conheço o rumo.
Aprumo um querer que já não me sobra
-obra de desencantamentos e desvios.
Tardio o sonho num corpo que envelhece
pois amanhece só lá onde não se sabe
e não cabe desistir à beira da minha estrada de poeira,
guerreira que sou, que procura
e jura que existe.
Insiste e vai, não se sabe pra onde.
Esconde o cansaço e separa as águas
- mágoas de um lado, de outro, provável loucura,
pura chama que não se esgota,
gota de vinho caída sobre o papel
no céu do meu desenho, provável paisagem
na aragem de tons da minha aquarela. Com lápis de cor
decoro meus sentimentos e no meu estojo, uma lembrança
de esperança nenhuma. Algum sofrimento
é alimento pra mais um texto ilustrado, que é de onde eu parto.

sexta-feira, 25 de abril de 2008


DE UMA CONVERSA

Muito belo o corrimão, e como é funcional, não?

Escolhi com cuidado, mas você ainda não teve o prazer de ver minhas xícaras novas! Os pires vêm com um sistema de encaixe e drenagem dos resíduos dos líquidos que não permite que um pingo sequer estrague o prazer de trazê-las à boca com a máxima segurança, sem roupas manchadas, uma maravilha!

Estou louco para experimentá-las, fiquei curiosíssimo! Mas o corrimão, como é anatômico e a textura permite um contato sem asperezas nem choque de temperaturas. A mão é acolhida e uma sensação de segurança toma conta do corpo todo, além, é claro, da estética perfeita, que dispensa exageros, mas que é longe de ser só funcional.

Sabia que ia reparar tudo isso! Tenho também, que descobri numa loja perfeita que visitei numa de minhas viagens, um saca-rolhas que automaticamente saca as rolhas deles mesmos para que não tenhamos o trabalho de continuar girando qualquer dispositivo pra esse fim. Ele saca as rolhas das garrafas e de si mesmo, imagina que descanso!

Olha, também a mim fascina a funcionalidade associada a um belo design e com certeza vou encomendar um desses, mas mudando um pouco de assunto, ando muito irritado e isso me preocupa, já marquei até um retorno no médico que me acompanha nessas questões vamos dizer assim psíquicas, sabe como é.

Claro, eu mesma continuo firme com meu remédio controlado pra pessoa descontrolada, sem ele, não sei o que seria de mim e da minha coleção de objetos bonitos e funcionais. Mas me diga, amigo, o que anda irritando você afinal?

A cor da fórmica do elevador do meu prédio é absolutamente insuportável.

Te entendo completamente.

quarta-feira, 23 de abril de 2008


DO AMOR

Escorrem águas por entre meus dedos finos, pois que tudo se liquidifica e derrama. Lentos os percursos, também os das águas profundas, tudo se dispôs à lentidão.
Abstratas as impressões, códigos de passagens, sinais para a leitura dos sentidos.
Lento, lento, o movimento que deságua, a revelar todas as invenções, supostos motivos pra seguir.
O que se vê é cenário, ilusão, até as guerras eternas, as injustiças, as vaidades, a dor dilacerante das misérias humanas, um intervalo entre a vida e nada.
Não agir é possível e cabe.
Consigo ouvir uma música tão perfeitamente bela enquanto levanto vôo e atravesso as montanhas pra tentar chegar a lugar nenhum – líquido orgasmo da efêmera beleza quando se revela pura, algo que insiste e sustenta.
(alguém diria ser o amor)

segunda-feira, 21 de abril de 2008


CUMPRIR ANOS


Cumpro anos enquanto crescem meus cabelos, resolvi que os terei novamente suficientes para uma longa trança.
Muitos fios brancos, cuidadosamente pintados, lembro-me quando os tinha curtos e sonhava com a sensação deles longos, roçando as minhas costas.
Cumpro anos, mais um que se encerra em plena indisponibilidade para festejos.
Cumpro anos, que sou cumpridora das minhas tarefas. Cumpri a conclusão desse último muito aborrecida por passar mais um sem os festejos mais que merecidos, fazer o que, indisponibilidade é o que é.
Cumprir anos me parece diferente de fazer aniversário.
Cumpro anos nos meus cabelos a crescerem mais ralos e nos desencantamentos mais fartos, mas agora, passados uns dias, já tenho o prêmio da minha ironia a se restabelecer com tantos ingredientes disponíveis pro seu alimento.
E portanto, resolvi que só hoje cumpro anos e brindo comigo, eu, minha taça de vinho e meus cabelos atrapalhados por um certo bom humor que me guiou pra achar esta, enfim, uma bendita lua cheia.

quarta-feira, 16 de abril de 2008


RESPOSTA A UMA AMIGA

Obrigada, minha flor.

Às vezes fico constrangida com esses tristumes. Tenho problema sério de prolongamento das dores e me sinto estúpida quando penso no mundo. Acaba que fico concentrada demais nas minhas merdas quando há tantas outras merdas infinitamente maiores com as quais eu poderia me distrair.
Desculpe, Poli (ou Ana?), está bem, sei que também há muitas flores nos jardins, lindas criancinhas nascendo e borboletas anunciando as belezuras do mundo.
Pessoas lindas que me amam e que eu amo, essas tenho mesmo coleção, com você encabeçando a longa fila.
Tenho andado muito dada aos desencantamentos, mas sei que dias melhores virão e, pra que sejam melhores de fato, estou fazendo um curso (dificílimo) de separação uns dos outros, cada dia um dia. Mas ando péssima aluna. Nas últimas provas tirei vários zeros e só um dez, assim mesmo foi só num pedacinho de um dos dias (confesso que já era noite), o resto, embolei tudo, uma verdadeira meleca. Mas quem sabe, com muito treinamento (credo! Tantos aniversários e ainda estou nesse estágio!)...
De qualquer maneira, valeu! Sempre é bom lembrar da sua importantíssima existência.
Também te amo e torço por você.
Beijão

segunda-feira, 14 de abril de 2008


FALTA

No meu estojinho de aquarela
faltou uma cor para hoje
Faltou outra para a falta em mim
Misturei duas para pintar um lírio
e dele fiz chá e dele morri

domingo, 13 de abril de 2008


PACOTE DE OCORRÊNCIAS

Vem uma ventania, traz um vendaval, deixa uma brisa que de tão boa parece pra sempre, mas vai que o ar se abafa. Abafado fica e demora. Demora o suficiente pra deixar vir um furacão que derruba tudo. Em pleno caos, uma obrigação de comemorar não se sabe bem o que.
Ninguém nasceu, alguém piorou mais um pouco, alguém desceu das montanhas, um amigo embolou-se e partiu.
As crianças crescem, percebem de leve que algo está fora de lugar, não muito mais que isso.
Algumas plantas morrem, bom que são de fácil reposição.
Amor é muito pra repor, amor mesmo dá trabalho e dura.
Ficar só dura também mais que muito.
A vida passa (já ouvi isso).
Difícil passar quando já bem na frente.
Mais ainda começar quando já bem na frente.

sábado, 12 de abril de 2008


NOITE

Bendita é a noite, que apaga o dia, que leva a dor para muito distante da claridade. Dor iluminada pelo dia é indecente e ostensiva, feia, medonha.
A noite acolhe a dor.
O silêncio é cúmplice do amor das crianças, seus sonos puros, seus cansaços desimpregnados, verdadeiros de motivos. Amor que não tem escrúpulo de ser manifestado em exageros sinceros.
Me acolhe, noite, me faz um carinho, faz de cada soluço meu uma gota de chuva, uma estrela, um esquecimento.

quarta-feira, 9 de abril de 2008


RAÍZES

Grotesca a imagem da mulher a arrancar suas raízes do chão com tanta dificuldade, a lhe custar esforço e dor. Eram como tentáculos, autônomos, ela os arrancava e eles se metiam a adentrar a terra por própria conta. Descabelada, cabelos e raízes a moverem-se, uma estranha dança de desgrudamento, de aflição.
Triste cena da mulher na luta do desgarramento, já que aquele solo não lhe permitia, aquele vento não lhe permitia.
Vai a mulher embora, arrastando suas raízes arrancadas e as raízes a puxar a mulher como se não quisessem desistir nunca.
E ela a dizer, essas não, essas não, que me bastem as outras de onde crescem as árvores reais (mesmo quando frágeis) que me fazem viver.

domingo, 6 de abril de 2008


PINGUELA

Ei você aí na ponte!

Não posso olhar, tenho medo de cair.

É longa mesmo, é estreita, nem é ponte, frágil pinguela.

Tenho que ir devagar, me custa.

Estou te olhando, vejo que você vai.

Vou por dever. Veja, lá atrás há um incêndio que consome tudo. Aqui, agora, uma névoa quase me tira a visão e ainda tenho que levar comigo o que me pertence.

E lá na frente?

Lá é longe, ainda. Mal consigo ver que existe, parece não ter fim a travessia.

É bela a sua roupa, seus cabelos estão crescendo, brancos.

Sei que posso voar daqui, perder os contornos, me dissolver na névoa, extraviar, virar outra coisa que também sou eu. Só que muito do que consigo eventualmente ver me dá náuseas, como um filme passado, sem sentido, sem graça alguma. E então me arrisco a dançar sobre esta longa e frágil pinguela, nesse equilíbrio precário, com meu vestido, meus cabelos brancos e meu sexo inquieto. Debruço meu tronco sobre estas cordas que servem pra algum apoio das mãos, debocho desse limite tênue entre o que se desfaz e o que ainda não existe, arrisco cair, dou risada e choro muito.
Mas chega, agora. Precisei dar esses gritos. Vou prosseguir.

Estou te olhando, vejo que você vai.

Eu e o que me pertence, mesmo que meus dedos sangrem quando se faz insuportável o peso da bagagem da qual não abro mão, mesmo quando se faz tão leve que as minhas asas içam meu corpo, querendo me levar pra onde não tenho limites nem contornos e os risos e os prantos são iguais. Mesmo assim.

Ei você aí na pinguela!

Me deixa ir.

quarta-feira, 26 de março de 2008


O BASTANTE

Gravei dez versões de “The man I love”.
Tenho uma versão verdadeira de um amor real.
Ia usar a palavra “apenas”, mas achei inadequada e injusta.
É o que é, bastante.
Uma versão de um amor real é suficiente, mais ainda é preciosa, até mais, prêmio.
Amor é conquista de anos e desapegos.
Amor é pra poucos, nem sei se pra mim.
Agora penso que é e exercito prazeres.
Prazeres são o que são, não outros.
Se eu for menos que agora, pode ser que me desvie.
Pode ser até que eu grave mais dez versões, todas lindas e todas me farão chorar.
Pois que pra chorar uma versão basta.
Pra amar basta mais ainda.

domingo, 16 de março de 2008


MELHOR ASSIM

Saído de um carro bem grande, um homem de cabelos brancos e chapéu preto toca a campainha de uma casa bem mais que bastante, porque rico. De costas, não saberá nunca de mim e nem que eu, que não sei dele, o fiz cenário dos meus devaneios.
Corro e no solo por onde passo uma suposição de cores dançam a música que me salva de só estar triste. Bem melhor assim.
Escuto Bach enquanto a cidade, abaixo de mim, salpica-se de pequenas luzes porque anoitece.
Pra lá da cidade, longe. E depois de longe não se sabe, ninguém.
Pretendo-me também longe porque sozinha. E debocho da minha condição porque preenchida de apropriações.
(águas me servem de presságios, vento é anúncio, também o silêncio)

O JOGO

Quem se perdeu?

A mulher.

Perdeu-se ou perdeu?

Os dois, obviamente.

E tendo perdido, procura?

É um jogo, requer estratégias, mudar algumas peças de lugar. O problema é que o tabuleiro do jogo é como um labirinto, só que sem muros. E daí que a cada curva ou desvio, uma paisagem se oferece, lhe interrompe o percurso e lhe rouba uma demora que já não possui mais. A mulher quer lugar algum, não quer jogar, quer achar nada e nem a si.
Uma flor no campo é o suficiente, a montanha (outra vez, a montanha) é tanto que corrompe o ar que respira. Causam-lhe motivos.
Em seu pranto derrama todas as cartas, todas as regras, chuta o tabuleiro, corre e deixa o mundo pra trás, perdido.
De não procurar é achada, atropelada, abusada, desviada, seduzida e deixa pra que a vida não simplesmente se acabe. Cumpre, pois que é dever do coração que o amor inundou pra sempre.

A mulher
do mundo,
do jogo,
do labirinto.

segunda-feira, 10 de março de 2008


O TRILHO E A TRILHA

Pois que há uma estrada e nela, obstáculos, e por ela passa esta de mim, aflita, sem poder parar onde quer com demora e até desperdício.
Há um trilho e uma trilha. Difícil permanecer no trilho, difícil não cair na trilha.
O trilho reclama o querer e a responsabilidade (onde também cabe um sem número de possibilidades estimulantes, paisagens, percursos, surpresas, seduções).
A trilha pressupõe os vacilos, os desvios, as quedas, os desafios, as fugas, as obsessões, uma inquietude domada pelo risco.
Feliz desta que percorre a estrada e que mesmo aflita, se arrisca a sair do trilho e a cair, se esborrachar, rolar, se atolar, se perder, desencontrar e se surpreender nos imprevistos da trilha.
Mesmo que muito, infinitamente aflita, a esperar um trilho que aprume e acolha seu querer forte como a montanha que se pode ver, admirar e percorrer
pelo trilho
pela trilha.

domingo, 9 de março de 2008


INSTRUÇÕES PRO DEUS SE ACASO EU FICAR BEM VELHINHA

1- Sem uma saúde razoável, prefiro não chegar lá.
2- Que eu não caia na besteira de usar roupas de velhinha. Uma camiseta com uma saia longa de estampa de borboletas certamente vai me cair melhor.
3- Que eu tenha dinheiro suficiente pra comprar ótimos produtos de beleza, incluindo os cremes de última geração e maquiagens bem modernas.
4- Que eu não seja acometida pela preguiça, a não ser quando estiver deitada numa boa rede descansando.
5- Se eu não tiver um velhinho safadinho comigo, que as modificações hormonais me ajudem a não querer subir pelas paredes. Mas é claro que prefiro o velhinho safado.
6- Que haja velhos safados que admirem a beleza das velhas bem cuidadas e tenham o maior tesão por elas e não pelas mais jovens, menos inteligentes e mais bobas.
7- Que a minha conversa seja mais interessante do que as que eu ouvi na sala de espera do oculista (já viu a quantidade de velhos nessas salas? – os olhos ficam cansados de ver com o tempo). E que eu possa sempre achar uma armação de óculos bem “fashion”.
8- Que meus filhos não precisem cuidar de mim, que estejam por perto só para bons casos e boas risadas (e para um bom colo, ou ombro, que esses nunca lhes vão faltar).
9- Que o tempo se estique pelo direito de não ter que trabalhar. Tem muita coisa boa pra caber nas minhas horas diárias.
10- Que eu tenha netos e netas, que eu saiba acertar os presentes deles, que eles sintam conforto e liberdade na casa da vovó.
11- Como não é exatamente do Deus que eu devo esperar tudo isso, que não me falte alegria pra que eu mesma chegue lá.

quarta-feira, 5 de março de 2008


RAINHA DE COPAS

Sou a Rainha de Copas, de mim derramam corações. O plural deve-se ao exagero, um coração não me basta, atropelo meu destino por vocação ao desastre.

Cala-te, mulher, retoma-te, abre teus baús de sedas e brilhos, renova teu perfume, exala, provoca, sabes bem o que não cabe em ti e onde teu pranto estanca, vá ligeiro.

Convoco então meus soldados, ......., mas é este o meu exército? Assim, perdida estará mais esta batalha!

E por que continuar?

Não sei outro caminho.

Ah! Abre porque outro caminho não sabe, não é?

É.

Pobre rainha.

Rainha - o R é maiúsculo, minúsculo neste momento é o meu preenchimento. Sou a Rainha de Copas e confesso: o coração é só um.

Um só?

Um, só.

Huuummm...., rainhazinha pobre.

Pois é.

domingo, 2 de março de 2008

E lá se foram, um por um, todos eles.
DO PERCURSO

Do limite tênue
que separa tudo de tudo
Da corda bamba
que nos convida pro precipício
Prefiro o trapézio em que oscilo
enquanto arrisco meus saltos vitais

Nos caminhos de pedras
imprimimos nossas sombras
Nos caminhos mais argilosos
revelam-se reentrâncias e relevos
No ar, os cheiros que por pouco
nem mais reconhecemos
(dos desejos, dos cansaços, das intuições)
Nesse mesmo ar
dissipam-se nossos sonhos e verdades
num rastro bem mais sutil e efêmero

E em tudo estamos
finitos
e infinitamente
sós

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008


29 DE FEVEREIRO

E pensa bem se não existisse o dia 29 de fevereiro pra consertar o que fatalmente caminharia para um caos! As coisas vão caminhando e, de tempos em tempos, um dia inteiro é necessário pra que as estações não se alterem, pra que as chuvas não caiam inadequadamente, pra que o frio não se meta no verão. Pelo menos a idéia seria mais ou menos essa. Tudo bem que a natureza já anda dando seus sinais de certa rebeldia, alterada mesmo pela estupidez do próprio homem.
Mas não é dado ao dia 29 o valor que lhe cabe. Deveríamos fazer festa, comemoração!
Um dia a mais nos foi programado de quatro em quatro anos (e nem é essa exatamente a precisão) pra que se acerte um monte de coisas e passa assim batido?
Se o primeiro dia do ano é tão cheio de simbologias de renovação, pensa no tanto de votos que caberiam neste dia 29 de fevereiro, o dia do conserto, da arrumação, do ajeito.
Vai que eu é que estou precisando de voltar pra um prumo, pra fazer uns acertos, reencaixar uns desencaixes.
E quem não está?

domingo, 24 de fevereiro de 2008


OUTRA VISTA DAS MONTANHAS

Pois vai que na memória um se encontra repleto de declarações e descobertas de amor. Um se cansa porque é assim, cansável. Um finge não acreditar no frescor de um dia que vem depois de outro. E um se esquiva de seguir se embasbacando com os fatos imprescindíveis e convenientes que o fizeram amar de maneira intensa e declarada, um finge que não acredita que seu amor tem poder de amplitude e continuação. Mas um se trai porque seu amor é alvo e é resgatável e um percebe que o dia que vem depois do outro tem paisagem fresca de cores fortes e um é uma criança teimosa que finge não conseguir crescer. Mas um cresce com seu amor de rosas e estradas de terra vermelha, um cresce com seu corpo de cheiros e gestos de maravilhosa indecência porque um ama assim, mesmo que o negue, mesmo que se ponha muitas vezes a dizer pra si que as coisas se acabam simplesmente.
Olha um, o mar de montanhas e por trás, mais montanhas, entre elas os vales, entre os vales os buracos, os abismos, os intervalos. Também me tenho assim, mesmo que me despiste em transparências de cores e flores e trago tudo pra bem pertinho pra não me precipitar lá onde não alcanço.
Um sabe amar como ninguém e não sabe.
Também não sei.

sábado, 23 de fevereiro de 2008


LUGAR COMUM

Ela
colecionava orvalhos
Ele
amontoava pedras
(fazia crescerem paredes)
Ela embriagava borboletas
pra assistir a uma dança nova
Ele enfileirava silêncios
alimentava-os com pensamentos
depois, enfileirava palavras
(era envaidecido de domá-las)
Ela costurava fuxicos
emendava-os com incertezas
ia fazendo tecido
que servia pra vestido de noiva
igual para velório
igual pra inaugurações
Ele fazia construção
moldava e colocava cimento
moldava de novo
colocava mais cimento
(dizia que montava futuro)
Ela foi embora
e levou sua coleção de tolices

Ele ficou com as pedras
os silêncios
os cimentos
as palavras
e o futuro ficou pronto!

(ninguém nunca soube pra quê servia)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


POEMINHA APAIXONADO

De ter beijado muito sapo
suponho cometer um acerto
-ter você por perto
pular essa história de príncipe
(que com ela nunca me dei)
te promover direto
te coroar meu rei

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008


PREVISÃO

Tudo estica ou encolhe
conforme o tom dessa noite
que mal se apresenta
e já se adivinha

Escudos de mil fábulas
convoco
ao desviar de cada lança
no gesto atento e exausto
da minha dança

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008




DAS MONTANHAS

Poucos prazeres se comparavam ao de chegar lá e conferir que as montanhas continuavam estáticas e disponíveis. O rio podia correr e transformar infinitamente a paisagem por onde percorria, pois afinal, tudo se move com o rio. Mas as montanhas permaneciam com uma estabilidade quase definitiva. Ir ver e estar com as montanhas era como alimentar uma quietude em constante ameaça. Conferir os contornos, averiguar que tonalidades ofereciam o clima daquele dia, a composição das nuvens, a temperatura, o cenário mutante das árvores e do mato, o cheiro do ar. Tudo em torno de uma firmeza que parecia quase real.
Foi a mulher conferir as montanhas e depois, de sua varanda, tecer seu tecido, bordar as beiradas, emendar os retalhos, construir a manta que cobriria um filho ou um amante, ou uma mãe já velha, ou um pai solitário, uma amiga, nunca um desconhecido.
Vendo as montanhas, pra que não morresse de inconstância e expectativa.
Por lá, depois, percorreria inúmeras trilhas, num quase delírio de que tudo podia.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008



VELHAS FUGAS

Dado que a lua devia estar cheia e eu não vi por causa das nuvens e dado que mulher tem essa coisa cíclica que se assemelha um pouco à lua e, pensa bem, que tem povo que chama a lua de masculino, não imagino o que se passa na cabeça desse tal desse povo, que a lua, de homem não tem nada, pelo menos assim é que eu penso. E dado que nesse embolamento não me restam muitas alternativas, assim, quero dizer, na prática mesmo. De super poderosa tenho só uma ou duas poses que devo confessar, já estão um pouquinho usadas demais pra não dizer gastas mesmo.
Ai, meu saco, que nem tenho que também não sou homem e que de homem também não tenho nada, mas ai meu saco de qualquer maneira, que estou a planejar umas fugas que já conheço bem, e que servem pouco pra não dizer que não servem muito. Mas vai que são pequenos salvamentos, assim como pequenos oásis neste percurso meio árido de sentidos e convicções. Fico guardando um coelho pra tirar de dentro da cartola, uma carta debaixo da manga, uns segredinhos que alimento pra não morrer de esvaziamento. E quem não tem seus segredinhos é porque deixou o trem passar e não percebeu que ia ficar sozinho.
E vou que vou, com mais um bando de afogados, tocando o carro, navegando o barco, tentando manter as rédeas nas mãos (sabendo que elas escapam).

MAGIAS DE UM AMOR

Mãe, meu dente caiu, o canino de baixo.
É, filho, nove anos, olha quantas mudanças no seu corpo.
É.(silêncio) Dessas coisas tipo Papai Noel, Fada do Dente, Coelhinho da Páscoa, qual você gosta mais, mãe?
Gosto de todos, a Fada é bem legal.
Acho que gosto mais é do Papai Noel mesmo.
Pois é...

A mãe ficou ali, pensando se ele ainda acreditava, ou o que ele estaria tentando dizer. E o dia se passou e ela quase se esqueceu do assunto, apesar de ter sempre um pequeno estoque de presentinhos do além para essas ocasiões. Já à noite, se arrumou para sair e despediu-se dele como sempre com muitos beijos e chamegos. Já estava na garagem do prédio quando o menino chamou pela janela.

Mãe, sabe o dente? Eu coloquei ele dentro de uma outra caixinha, é que não achei aquela de antes, já está debaixo do travesseiro.
Ah, sei, foi boa idéia, que bom que você arranjou uma boa solução. Beijo, meu querido.

E a mãe mudou o relógio de pulso para o outro braço pra que não se esquecesse, e amou ainda mais aquele menino, seu companheiro e cúmplice.

Passado um tempinho, ele fez dez anos. Esse amor, talvez o mais garantido, é um amor que só cresce.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


TAREFAS DE FADA

- Substituir o dentinho de leite caído por um presentinho do além, cheio de significados.
- Amanhecer.
- Guardar com alegria, mesmo que já em atraso, os enfeites do Natal.
- Sair voando por aí.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

“Não esqueçamos o goofus bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa para trás, porque não quer saber para onde vai, e sim onde esteve.”

“O cem-cabeças é um peixe criado pelo karma de umas palavras, por sua repercussão póstuma no tempo.”

Jorge Luis Borges, “O Livro dos Seres Imaginários”

DAS INVENÇÕES

Pensou se seriam sempre repetições dela mesma, anos a fio, aquelas pessoas meio andróginas que eram recorrentes em seus desenhos. Vinham todas de um mesmo buraco.
E foi que o ser amado disse a ela: bonito o desenho, a expressão.
Foi o suficiente pra que o papel não fosse parar no lixo. Foi guardado dentro do livro dos seres imaginários (J.L.Borges), presenteado por ele.
Seres imaginários existem, de vários tipos, as crianças mesmo têm os seus, que os declaram amigos. De certa forma, somos seres imaginários de outros seres, e de nós mesmos.
Eram muitos os seres que acompanhavam os dias daquela mulher, que ao longo dos anos envelhecia, e que pra manter-se em funcionamento normal, debochava de si mesma às vezes, principalmente quando se tratava do amor. Achava curioso que alguns de seus sentimentos evoluíam muito pouco com o tempo, que se pegava a quase morrer em armadilhas que já conhecia.
Algumas funções haveriam de dar sentido à vida, ou pelo menos disfarçar a tolice que tudo parecia. Nada tem importância (e se dava conta do quanto precisava profundamente daquele nada que restaurasse alguma importância concreta).
Seres imaginários existem assim como um amor seguro e persistente, nunca deixaria de acreditar, mesmo que tudo lhe parecesse condenado à ilusão. Lá dentro dos olhos daquelas pessoas que desenhava, lá no meio das cores que pintava, das paisagens, dos borrões, anos a fio, a vida.
Tudo sem a menor importância, tudo invenção.
E foi que chegou outro presente do amado – uma caixa de ferramentas para a imaginação, um mundo de cores dentro de um belíssimo estojo. Ela foi passeando os dedos sobre os lápis perfeitamente encaixados no veludo, suavemente, um por um, como uma carícia, as nuances, os tons, os relevos, eroticamente, um gesto de amor.
Mesmo afogada e perdida em meio a tantas condenações, ficou agradecida.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008


CONTINUAÇÃO

Prosseguindo, uma amiga disse com certo sarcasmo que a vida realmente não é necessária, mas as pequenas ilusões, essas sim, são necessárias à vida.
Vamos deitar aqui e deixar o dia passar, nada é importante.
A propósito, o síndico disse que o zelador levou o extintor de incêndio pra recarregar, e que não havia sido roubado como imaginou.
Muito satisfatório não preocuparmos com possíveis incêndios.
E zelavam-se as amigas, cúmplices de reconhecimentos e constatações.
Minha amiga, sei que dor é essa. Lembra do humor do seu analista ao te perguntar, na sua chegada no dia seguinte: e então, não morreu não, né? Está viva?
E você respondeu entre prantos e risos: fazer o que?
E em meio às angustiantes desimportâncias daquele momento, o dia foi se desfazendo
em nada,
pra nada.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


RETORNO

Apurados os apuros, ficou a mulher deparada com a única tarefa real e talvez a mais difícil. Dar-se a si mesma não como um prêmio, bem mais como dever e única saída. Tomar-se para si era como readmitir o eterno recomeço. Lembrou-se então de um sonho onde duas mulheres salvavam outras duas que se afogavam. No limite do risco da vida, se olharam, as duas mulheres salvadoras, e como se olhassem no espelho, executaram o gesto da salvação como uma coreografia. Debruçaram-se sobre as afogadas e no encontro das bocas, devolveram a elas o ar e a vida.
Nesse beijo ficou gravada uma remota dúvida, que mesmo remota, não perde a condição de dúvida.
Haveria sempre a coragem de buscar o pólo oposto, com a certeza do que nunca se encontra, com a humildade da falta eterna?
Haveria a coragem de recuar? Seria real outro caminho?
E na turbulência da volta, pensou a mulher nas funções, pois o síndico tocou a campainha, preocupado com o extintor de incêndio que havia sido roubado. E pensou se seriam as funções que davam sentido à vida.
Pois sim, as funções. As grandes, poderosas funções e as medíocres, muitas vezes igualmente indispensáveis.
Pequenas ilusões de que a vida é necessária.

domingo, 23 de dezembro de 2007


ENSINANDO ANJOS A BEIJAR

E por que os anjos não se beijam?
É que confundiriam suas línguas pra sempre e eles sabem.
E se ajudássemos, quero dizer, sabemos desconfundir nossas línguas e tudo mais.
Não sei se devemos.
Podemos tentar sem compromisso.
Então vai, chama os anjos, você é quem sabe faze-lo.
Estou chamando. Pronto, estão aqui. Me beija.
Estou com um pouco de medo.
Eu também, mas vamos logo com isso.
Estou confuso, quero te dar uma certeza que não tenho.
Qual?
A de que não confundo minha língua com a sua.
Os anjos estão esperando. Me beija e eles saberão.
Que estrelas são essas que estalam na minha boca?
Amor de anjos.
Vamos parar, minha língua quer a sua pra sempre.
São os anjos que falam por você, pra sempre não existe pra nós, só para os anjos.
Te quero pra sempre.
Eu também, mas não somos anjos, não podemos.

E foram-se os anjos, assustados.
E ficaram os dois, desconfundindo suas línguas, cuspindo e engolindo estrelas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007


RENDA

Uma renda guardada numa caixa
espera um vestido.
Não haverá.
O rumo se altera
esquecido um sonho.
Outro
não faltará.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007



AJUSTES

Até que se esgote um tempo e a paciência não se acabe.
Até que se consolide um adeus.
Até que um anjo me faça visita
e derrame aos meus pés um percurso de flores,
ninguém sabe.

Que o seu amor resista forte e contínuo.
E o meu, igualmente, te aqueça a alma.

Pra caminharmos sobre o chão florido
com calma.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

abismar pra cima, rumo ao céu
Cansada das minhas imperfeições e dos meus despreenchimentos, providenciei uma ou duas conformidades. De nada me serviram, pois que tenho natureza inquieta. Todo o tempo que tenho pra frente ficou subitamente comprimido no meu peito, paralisante e explosivo. Busquei um repertório de quietudes pra tomar uma gota a menos do meu ansiolítico. Em vão. Acordar pela manhã ficou sendo tarefa complicadíssima, é preciso treinamento pra tomar meu café sozinha e respirar ao mesmo tempo.
E tinha um poeminha que era assim:

CONSTATAÇÃO

Sou demorada para auroras
Só clareio lá pras tantas do dia
Meu sabiá não fugiu da gaiola
Meu bem-te-vi não te viu

É isso por hoje.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007


POEMA PARA DANÇAR

Eu queria
dançar um poema
Tocá-lo com os pés
Com os braços
trazê-lo ao prumo
Com um giro
alterar seu curso

Dar-lhe espaço

Surpreendê-lo com um salto
Jogá-lo ao chão
arrastar, rolar, apoiar
Exaurir seu cerne
ao repetir, repetir
e repetir o que se repetiu
com um sempre
que se sabe finito
Queria dar-lhe meu tronco
(e o que dentro, no centro habita)
Possuí-lo com os quadris
mover
que tudo é movimento
E saber dar-lhe um fim
suado
e ofegante


quarta-feira, 14 de novembro de 2007


PALPITAÇÃO

De me queixar
adoeci
De amar
sarei
Do seu beijo
me fartei
De palpitar
enfartei

(palpitei
um palpite
tão adequado
que ao seu lado
ressuscitei)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007




RECEITA

As noites
acometidas de estrelas
são feitas pra namorar
Quando não se tem namorado
servem pra sonhar
Se o namorado faz dor na gente
servem pra chorar
Se o momento não é de amores
pode-se andar a esmo

Nas noites
não acometidas de estrelas
o cardápio pode ser o mesmo

sábado, 27 de outubro de 2007


CANTIGA DO DESMITO

Ao cumprir o esperado
da espera do amado
teço minhas tramas
enfeito meu bordado

Mas não penses que o faço
na conformidade de uma sina
Do meu canto de espera
não ouvirás triste lamento
À dor da saudade
cantarei até obscenidades
e direi ao vento
que mantenho uma porta aberta
pra eventuais visitas

E se demorares demasiado,
meu amado
me enfeito com meu tecido
(dever cumprido)

E serve o teu jantar
que eu não vou voltar

terça-feira, 23 de outubro de 2007


UM TIPO DE GENTE

Tem gente que é afeiçoada à falta. Em tudo procura buraco, vazio, procura o que não há, o que supostamente falta, mesmo que ninguém tenha dado falta.
A fartura pode rodear essa gente, vai sempre haver algo que falta.
Essa gente gosta de queixar da falta, de planejar as próximas faltas, supor que alguma coisa vai faltar.
O dia pode estar lindo, falta sombra.
Se tem sombra, falta sol.
Se tem sol, falta chuva.
Se tem chuva, outra vez falta sol.
Até onde tem amor, amor não vê, vê falta.
Nos dias de celebração há uma prontidão em descobrir o que falta.
A falta acaba se afeiçoando a essa gente e não larga nunca mais.
Bando de gente ranzinza, que acaba não fazendo nenhuma falta.

terça-feira, 16 de outubro de 2007


RECURSO


De colecionar manhãs atrasadas, soltou um imenso suspiro de nuvens querendo chover.
Esvaziou gavetas, se desfez de alguns guardados, a outros devolveu vida. Costurou um beijo do amado no decote do vestido mais bonito e saiu assim, fingindo plenitudes.

Quem a viu pensou: essa esbanja espaços preenchidos.

domingo, 14 de outubro de 2007


O HOMEM SEM CHEIRO

O homem perdeu o cheiro. Tem só idéias, ou melhor dizendo, raciocínios, nem mesmo pensamentos.
É magro e se esforça para ser seco, e é.
Muito limpo, quase asséptico, mas só nas externidades, nas ações muito menos.
Os esquecimentos lhe servem para a injustiça. As fantasias e deturpações mais ainda.
Desprovido de qualidades não é nadinha, mas nas perturbações, faltam-lhe todas elas. Freqüentemente perturba-se.
Acha-se encantador de palavras, não para a sedução, mas pra que elas sejam servas de seus desvios. Acha que dizê-las altera a realidade dos acontecimentos. Diz palavra, mas não diz pessoa. A pessoa freqüentemente escapa-lhe da palavra.
Tem olhos molhados, o homem, mas não tem olhar. Dissimula desprezos, não que alguém acredite.
No lugar de sofrer, o homem sem cheiro odeia e assim facilita sua vida. Se não isso, finge bem, quase convence.
Há quem se engane a vida inteira, talvez por não ter aprendido nunca a chorar direito.
O homem sem cheiro parece que é assim. Mas pouquíssimo se sabe sobre ele.
Muita gente, no entanto, conhece alguém um pouco parecido.
Alguém assim, que perdeu o cheiro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007


LENDA

Primeiro foi um musgo fino
que envolveu a palavra
Em seguida um lodo espesso
tomou conta do que ainda
se tentava dizer
Rompeu-se então o silêncio
brotou que nem mato
que dispensa cuidado
e cresce com a mais remota chuva
Nasceu uma flor miúda
sem cheiro e assustada
de estranho encanto
e revelada beleza
que no seu dizer nada
contava ter sido princesa

quarta-feira, 10 de outubro de 2007


OUTRA CONVERSA


Você, de novo.
Quero invadir seu vestido.
Não pode.
Não sei parar.
Chegará a lugar nenhum de mim, minhas frestas não te cabem.
Trouxe lírios para que você enlouqueça.
Não, não mais, tenho só a lembrança de um perfume, e me basta.
Quero o seu medo.
Não, não mais. De ser quase nada me coube um início sem fim. Agora, fico sempre começando. Medo, nenhum.
Discordo para sempre.
Não quero te convencer e nem preciso. Desisti das tragédias, estou mais simples no meu belo vestido que retiro (ou é retirado) só no quando do meu consentimento e do meu desejo. E na terceira superfície que o contato ínfimo e absoluto entre os corpos provoca, não há fresta nenhuma que se preste a ser invadida por teias de palavras, lembrança de escuros, temores e abismos. Agora só presto pro amor.

terça-feira, 9 de outubro de 2007


















PEQUENO TRATADO SOBRE PESSOA E PALAVRA

Tem pessoa
que encanta palavra
Tem pessoa que usa palavra em vão
Tem palavra que usa pessoa
Tem pessoa que usa palavra
Tem pessoa que não tem palavra
Tem pessoa que entorta palavra
Tem pessoa que planta palavra no chão
Tem pessoa que planta palavra na cara
de outra pessoa
que fica sem palavra
Tem palavra que eleva pessoa
que cura pessoa
que anula pessoa
Tem pessoa que leva palavra pra casa
Tem pessoa que domina palavra
Tem palavra que domina pessoa
Tem palavra que diz palavra
Tem palavra que diz pessoa
Tem pessoa que diz pessoa
Tem pessoa que diz palavra
Tem palavra que é gesto de pessoa
Tem pessoa que não vê palavra
Tem pessoa que não ouve palavra
Tem pessoa que enfeitiça palavra
Tem palavra que é qualquer coisa
que queira a pessoa
Tem pessoa que é qualquer coisa
que queira a palavra
Tem palavra que escapole de pessoa
(parece ter vida própria essa palavra)
Tem pessoa que escapole de palavra
(parece ter vida própria essa pessoa)
Tem pessoa que fica doendo depois de palavra
Pessoa vem antes de palavra
Tem palavra que fica
depois de pessoa
Tem pessoa que fica
além de palavra

Tem pessoa
e tem palavra

terça-feira, 2 de outubro de 2007




NA TRANSPARÊNCIA

Desviou de uns dois fantasmas e entrou numa casa velha e abandonada. Percorreu uns dez corredores, atravessou algumas salas, parou diante de um espelho trincado. Nele, sua imagem estava nua. Olhou-se nos olhos. Uma mulher nua. De outros tempos a mulher, mulher que não há. Dentro do seu novo vestido estava ela e a do espelho e seguiria assim. Os olhos de outono eram só uma memória gravada na transparência. Voltaria àquela casa, muitas vezes talvez, agora sem medo.
Lá fora era noite alta. Levantou os braços e alcançou algumas estrelas que dissiparam entre seus dedos luz e quimera.
Estava muito mais pura.
E no meio da noite escura, muito mais primavera.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007


Olha, um gato dorme sobre o tapete e viver passa.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007



“Quando choraste, foi só por ti e não pela admirável impossibilidade de te juntares a ela através da diferença que vos separa.”
Marguerite Duras

UMA CONVERSA

Toma um chá, ela disse.
Não.
Então, senta, descansa um pouco.
Não.
Viu o jardim, como está florido?
Digamos que não entrei de olhos fechados.
E o que te trouxe?
Precisava não vê-la.
Mas aqui estou, sempre eu.
Vim outra vez para não vê-la. Quero não te ver pra sempre.

O chá derramou-se sobre a mesa. Ela trocou a toalha, foi até o jardim e colheu algumas flores que colocou no jarro colorido de porcelana e em seguida acendeu uma a uma todas as velas.

Aqui as noites são calmas e belas e os dias têm sido bons pra mim.
Pouco me importa, agora vou embora mais uma vez.
Seus sapatos estão sujos, posso ver suas pegadas.
Não olho por onde ando e nem quero.
Então, adeus.
Voltarei sempre para não vê-la, mesmo que eu diga que não venho mais, você sabe.
Pouco me importa, os dias têm sido bons pra mim, e às noites, você continuará não me vendo, só que sem me ver, pois não estou mais no mesmo lugar para que não me veja. E no rastro de suas pegadas, por esse caminho que você percorre sem olhar, me verá em todas as chuvas e verá também todas elas, as que você não quis ver e nunca esqueceu.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007


CAUTELA
Debruçou-se à beira de um desejo e viu um abismo.
Não se precipitaria como de outras vezes.

Uma trilha havia de ser aberta, aos poucos, com prazer e trabalho. Tudo pedia para ser minuciosamente cuidado – que flores plantaria, o percurso, a largura da pequena estrada, as pontes, uma clareira, um mirante que facilitasse ver o nascer da lua cheia.
E nunca mais se esqueceria de uma cabana que abrigasse a solidão com conforto e sossego.

Debruçou-se à beira do desejo e viu um precipício.
Nenhum motivo para abismar-se.

domingo, 26 de agosto de 2007


DOMINGO

Pronto, que vou me render ao tamanho dos meus braços e das minhas pernas. Vou a lugar algum agora, me deixem. Tudo o que quero lá fora cabe no meu quarto, no meu piano e nas cores das minhas tintas.
Estou pequenina, minúscula, ocupo metade do meu espaço habitual.
Cutuco uma saudade pra sofrer um pouquinho. Sofrer um pouquinho colore o céu com mais azul e derrama um pequeno drama no meu borrão de tinta.
Acho que é uma flor que se pinta.
E que se abre porque outro caminho não sabe.

terça-feira, 14 de agosto de 2007


ATRÁS DA IGREJA

A mulher que recolhia pelos olhos pedaços infinitos do mundo por onde passava, achou de esconder seu olhar atrás da igreja. Fixo, almejava sossego, como se pudesse estancar a turbulência dos pensamentos.
Atrás da igreja parecia adequado e vazio. Quase não tinha nem flor, pois quase nem era um jardim. Era um quase nada onde os olhos podiam parar escondidos ali.
A mulher era cansada de olhar pras coisas, olhava demais e tudo virava motivo.
A mulher era cansada de motivo. Nuvem, pedra, criança, calçada, flor, parede velha, gente, vidro quebrado, lagartixa, avião, chuva, cão vadio, garrafa, papel amassado, esquina, poeira voando no vento, tudo era motivo e cansava.
A mulher pegou gosto de esconder seu olhar atrás da igreja, que ali cansava menos. Dizem que foi deixando de ser até virar planta. Só à noite dá pra ver sua sombra que se arrisca a passear no escuro

domingo, 5 de agosto de 2007


ESPECTRO


Há um espectro de mim
que esparrama um rastro de hortênsias
e aroma de almíscar
É um fantasma inebriado
e diz obscenidades
Gosto de vê-lo pairando
e ouvir o seu canto
Belas são suas vestes de vento
e luz
Lá vai ele entre as árvores
te buscar e soprar em seu ouvido

o que você tem esquecido


FOTOGRAFIA

Minha imagem
caiu da fotografia
que ficou
subtraída de mim

O que restou no papel
foi coisa parecida com ausência
com despedida
com tempo que passa

Minha imagem
foi tentar outro sorriso
outra posição dos braços
outro ângulo de olhar

Ficou fotografia sem mim
e eu sem moldura

difícil não ter contornos

quinta-feira, 2 de agosto de 2007




Árvores são boas. É bom olhar pra elas, visto que acolhem e convidam. Árvores dizem sobre tempo que passa e sobre nada. Há algo das raízes que alivia pensar em não tê-las. Das folhas é sabido que caem, que outras vêm e que todas se prestam ao vento. Algo dos galhos sugere percursos e desvios em comovente inexatidão. E sombras, sempre sombras. E um quê que parece tocar o céu. Árvores são boas para pausas.

quinta-feira, 19 de julho de 2007


PRA UM AMIGO

Há um prazer em olhá-lo a vigiar o rio. Parece-lhe bela sua solidão. Ele adora as montanhas e não se move. Os dias passam, o rio passa, as crianças crescem e ele é belo, porque em seu desejo algo se move com o rio. É bom vê-lo e é bonito o que ele não diz. Ele procura as montanhas e sabe que às vezes ela vai vê-lo e gostar dele.
Talvez ela não vá mais.
Porque tudo se move.

quarta-feira, 18 de julho de 2007




PIANO

No piano calaram-se todas as notas por muito tempo. E o coração que achava que batia.
Os dedos tomados por outros ofícios e carícias dançavam no silêncio. Ninguém mais sabia que havia um piano que também não mais se sabia. Entretanto, nunca foi pensado vendê-lo, pois que ocupava um espaço naquela sala a hospedar as memórias dos porta-
retratos e pontuar o silêncio com sua possibilidade.
Há quem jura ter ouvido algumas notas como fantasmas perdidos, quando não havia ninguém na casa. E há quem jura ter visto a mulher que, ao fingir que também não se sabia, dançava ao som da música de seu próprio espectro que tocava.
No silêncio.
Na noite.
Por muito tempo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007


CONVITE

Nos dias de árvore, agarram-se os pés no chão e não há quem os arranque. Bom mesmo é sair por aí a conversar com insetos, lagartos e pedras. Tem gente de tudo quanto é categoria e a gente muda de categoria de acordo com as conformidades. Tem dias de folha que servem pra sair por aí voando conforme o vento. Tem dias de vasculhar as caixinhas de esquecimento onde moram os guardadinhos, uns que nem dizem mais nada. Tem dias de ouvir que o corpo pede chazinho e chamego. Difícil é poder usufruir conforme os dias, pois que pra viver tem muita tarefa e desencontro. Dá vontade é de fugir pro mato com boa companhia e um cachorro pra ficar deitado no chão, se coçando do lado da rede e farejando o que a gente não sabe. Podia ser cachorra. Tá feito o convite (nem que for só pra imaginar).

terça-feira, 10 de julho de 2007

VALES ENTRE UM RIO


Entre os vales passava um rio e neste rio ia uma correnteza forte, muito forte, não era possível atravessar nem nadar, nada era possível.
Ele dizia lá do outro lado bem alto pra que ela ouvisse do lado de cá e dizia e dizia, ela olhava as palavras, todas elas derramando, se juntando à correnteza, nada podia ser feito.
Ela dizia do lado de cá pra que ele ouvisse do lado de lá, as palavras derramando na correnteza, nada.
Ela olhou e acenou e ele olhou através dela, e atrás dela havia um espelho onde ele se via.
Ela acenou novamente e olhou com força, com seus olhos de chuva. E viu um homem através de uma névoa. Um homem que ela não conhecia.
Choveu em cima dele e todo o vale do outro lado do rio se prestou à chuva.
Sem conseguir parar de falar, ele, através da chuva tentava vê-la, o corpo, os olhos chovendo, mas só via, através dela, o espelho.
Ela se despiu e começou a caminhar, ele a seguia também caminhando, mas não enxergava seu corpo nu. E no espelho que ele via, chovia.
Ela correu e dançou e o vale do lado de cá se atirou à primavera.
Mas nos olhos dela, de chuva, chovia. Chovia nos olhos dela enquanto ela dançava nua – a primavera era, por demais, inevitável. E nem ela queria evitá-la com seus olhos de chuva.
E no espelho, chovia.
Foi um desaforo de flor brotando pra tudo quanto era lado, no lado de cá do rio. Um desaforo de cor e cheiro e as crianças vieram também nuas, rolar sobre a primavera.
E nuas, não escondiam nada.
As crianças quiseram atravessar o rio. Como ela também quisera um milhão de vezes.
Nadaram como se não houvesse correnteza e do lado de lá se puseram a caminhar na chuva.
Ela, do lado de cá, olhava temerosa e ao mesmo tempo agradecida de que as crianças podiam atravessar o rio, sempre.
As crianças gostam da primavera e da chuva e as palavras para elas ainda dizem pouco.
A chuva diz muito, e também o espelho, o rio, os vales e a primavera.

domingo, 8 de julho de 2007


VISTA

Reinicio a vida
Vejo o mundo todo
do alto de um morro
De lá vejo um mar
de montanhas
E em cada contorno
que a tarde ondula
mora um segredo
em cada tom indecifrável
a cor da justiça
da compaixão

Assim como habita
entre as pequenas ondas
dos meus magros seios
todo o amor
que não consigo

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O CONTRATO

para a Gi

A menina, por vocação, se prestou a bailarina. Daí que na escola onde ela aprendia, acharam que a então mocinha prestava pra ser professora. Em pleno aprendizado da dança (que tem a duração da vida), ela podia agora começar a também ensinar. Assim, a escola contratou a menina, já moça, e solicitou os documentos para oficializar o ofício devidamente. Entre os tais documentos necessários, foi-lhe pedida uma “abreugrafia”.
Nossa dançarina, com seus pensamentos de giros e saltos, não teve dúvida: estavam pedindo sua “biografia”. Alguém que vai ensinar dança, precisaria dizer sobre si mesma, sobre sua vida. Ela então ficou apertada, ao se ver com tamanha tarefa.
Começaram a cobrar-lhe o documento e ela, aflita, adiava a entrega. Era preciso dedicação e capricho. Depois de um tanto de cobrança e trabalho, chegou a bailarina na escola e entregou aquelas folhas escritas com tanto cuidado. Ao se darem conta do equívoco da menina, riram muito, sem constrangimento, e explicaram que precisavam era da “abreugrafia” e não da “biografia” da moça, coisa de pura burocracia. Ela sim, ficou muito constrangida e gravou o acontecido em sua “biografia”.
Fiquei comovida com essa história de pedirem a radiografia de seu pulmão, e ela, por engano e ingenuidade, entregar com a devida insegurança, a radiografia da alma e do coração.
Coisas de bailarina.

quinta-feira, 5 de julho de 2007



PAUSA


Peço licença
pois em ti espreito, flor
a desprender em cada pétala
o arrastado desses dias

És bela, mas passas
e perdes teu viço
bem antes da minha pausa

estou a me prestar a nada

quarta-feira, 4 de julho de 2007


PERMANÊNCIA

Eu disse: - Senta, amiga, ao meu lado, nesta sombra, neste chão adornado de amarelo das flores que o ipê desprende. Vem comigo imaginar que se desprenderão todas elas até que um ciclo inteiro se cumpra e outras tão amarelas brotarão e que isso é certo. Vem, amiga, vamos falar de intimidades – fazemos isso tão bem, com propriedade e sintonia. Vamos falar e deixar que nossos olhos falem o que as palavras não sabem – fazemos isso tão bem. E então, lê comigo esses poemas como quem compartilha o vinho mais saboroso. Lê comigo até ficarmos tontas e saciadas. E assim se deu. E no verão que seguira, da tempestade, um raio interrompeu as possibilidades do ipê.

E isso sim, era certo.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

VENTANIA

para Mário Quintana


Mário Quintana, em uma de suas belas crônicas, me deu (a mim e a quem quisesse para si) a palavra “ventania”. Corri a fechar as janelas pois que a palavra me pegou de maneira devastadora. Voaram os papéis, as cortinas , meus cabelos e meus pensamentos.
Pus-me a olhar a ventania através do vidro no balé das árvores e das folhas desgarradas. E pensei que olhar a ventania é enxergar o invisível, ver somente os seus efeitos e neles reconhecer o que só é possível sentir. Ventania causa efeitos físicos e afetivos – como não se afetar ao observar atentamente a ventania?
Fui me sentindo assim meio desarrumada pela ventania que, em seu rumo, roubou o meu. Desarrumada me vi: sem rumo, sem norte, desnorteada (será que era vento sul?).
Em pleno espetáculo de ventania, emocionada, agradeci ao escritor pelo generoso presente que me pôs de encontro com a minha desordem.
E percebi que algumas outras palavras “invisíveis” podem se tornar espetáculos para qualquer observador, desde que ele se preste a esse desejo. Por exemplo, “calor”, “frio” e mesmo “saudade”.

domingo, 1 de julho de 2007

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