quinta-feira, 12 de novembro de 2009


JANELA
pra minha mãe

“A primeira namorada, tão alta que o beijo não alcançava, o pescoço não alcançava. nem mesmo a voz a alcançava. Eram quilômetros de silêncio. Luzia na janela do sobradão.” (Carlos Drummond de Andrade)

A chuva desaguava o azul das hortênsias quando uma vontade bem pobrinha me levou da cadeira à janela.
O tempo era apressado e inconveniente.
Não cabia nele nem as estampas dos vestidos das mulheres de Klimt, nem cada ponto do bordado que eu faria para o vestido do meu próprio casamento.
Pra consolar minha conformidade imaginei que naquela janela era eu a Luzia de Drummond e que de algum outro tempo alguém secretamente olhava
o meu sobrado.